Livro I · A Queda

Capítulo VI

O Último Ato de Amor

“Aquele que não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor.”

— 1 João 4:8
Índice
Texto

Ninguém se moveu de imediato. O brilho dourado ainda atravessava a enorme abertura nos Aposentos de Deus, enquanto Miguel e Rafael permaneciam no Pátio, encarando a destruição.

Miguel voltou o rosto para Rafael.

— Sabe o que aconteceu?

Rafael continuou olhando para os Aposentos e balançou a cabeça.

— Não. Não conseguimos entrar nos Aposentos. Também não vi ninguém entrar.

Miguel ergueu os olhos. No alto, Gabriel também permanecia olhando para os Aposentos de Deus.

Sem hesitar, apontou a espada em direção aos Aposentos de Deus e gritou:

— GABRIEL! VÁ! AJUDE O NOSSO SENHOR!

Gabriel ouviu a voz do irmão e disparou na direção de Deus. A quimera partiu atrás dele.

— Anjinho! Preste atenção! Você está lutando comigo!

Gabriel não diminuiu a velocidade.

A quimera se aproximava rapidamente quando dezenas de querubins surgiram ao redor dela. Alguns carregavam ferimentos pelo corpo; outros ainda tinham as armaduras intactas. Vieram de todos os lados e, como um enxame, cercaram a criatura.

Braços envolveram suas asas, pernas e braços, enquanto outros querubins agarravam tudo o que conseguiam alcançar. A quimera tentou se desvencilhar.

— Saiam de cima de mim!

Um dos querubins ergueu a voz:

— GABRIEL! VÁ!

Outros se juntaram a ele.

— NÓS SOMOS O SEU ESCUDO!

Gabriel olhou para trás. Então voltou os olhos para os Aposentos de Deus e acelerou.

No Pátio, Rafael observou o orc e, mais adiante, o minotauro entre os escombros. Então se voltou para Miguel.

— Vá. Eu seguro os dois — falou Rafael.

Miguel hesitou.

— Você não está bem.

Rafael sustentou o olhar do irmão.

— Miguel, o mais importante é o nosso Criador. Vá. Nossa missão é protegê-Lo.

Miguel voltou os olhos para os Aposentos de Deus. O orc ainda estava à sua frente, enquanto, mais adiante, o minotauro começava a se recompor entre os escombros. Já havia tentado passar pelo orc voando e falhado. Precisava encontrar outra maneira. Então correu em direção aos Aposentos de Deus.

O orc saltou e caiu diretamente no caminho de Miguel.

— Muito bem… está correndo.

Miguel não parou.

— Eu não tenho mais tempo para perder com você. O meu Senhor está precisando de mim.

Ergueu o escudo diante do corpo e girou a espada na mão, deixando a lâmina apontada para baixo. Sem diminuir a velocidade, avançou diretamente contra o orc.

A criatura ergueu a clava e atacou. Miguel recebeu o golpe com o escudo. No instante do impacto, um intenso clarão dourado explodiu entre as duas armas, enquanto brasas se espalharam ao redor deles. A força do golpe empurrou seu braço para baixo, mas, dessa vez, Miguel não tentou resistir. Aproveitou o próprio impacto, acompanhou o movimento e enterrou a espada no pé do orc.

A lâmina atravessou o pé da criatura e se cravou no chão. Não houve sangue. Uma luminosidade dourada permaneceu visível no interior do ferimento por alguns instantes.

O orc gritou. A dor fez sua mão perder a força, e a clava se afastou do escudo de Miguel.

Miguel aproveitou a abertura. Abriu as asas e impulsionou o corpo para cima. Com toda a força do movimento, acertou o escudo diretamente no rosto do orc.

A criatura tombou para trás. Miguel não tentou recuperar a espada. Sua relíquia permaneceu atravessada no pé do orc, prendendo-o ao chão.

Mais adiante, Rafael firmou a lança nas duas mãos e assumiu posição de combate. À sua frente, o minotauro terminou de se erguer entre os escombros e avançou, arrastando o enorme machado negro. O braço perfurado pela lança de Rafael ainda limitava seus movimentos, mas a criatura forçou o membro ferido e ergueu o machado para atacar.

Quando a lâmina desceu, Rafael abriu as asas e ganhou altura no último instante. O machado atingiu violentamente o chão abaixo dele.

Ainda no ar, Rafael girou o corpo e avançou com a lança apontada para o peito do minotauro. A ponta dourada se aproximou da criatura, mas o gigante desviou o corpo e escapou do golpe. Rafael passou por sua lateral e começou a se virar para atacar novamente.

O minotauro, porém, abaixou-se e agarrou um querubim morto que permanecia entre os escombros. Sem hesitar, lançou o corpo do querubim contra Rafael.

O olho direito de Rafael se arregalou. Ele desviou no ar, e o corpo do querubim passou por ele antes de cair no Pátio.

— Me perdoe…

O orc se levantou com dificuldade e agarrou a espada de Miguel ainda cravada em seu pé. Com um puxão, arrancou a relíquia e a lançou ao chão. O ferimento permaneceu sem sangue. Quando tentou apoiar o peso sobre o pé perfurado, cambaleou e foi obrigado a mancar. Tomado pela raiva, apertou a clava com as duas mãos. Seus olhos encontraram Miguel, que avançava em direção aos Aposentos de Deus. O orc recuou a clava, preparando-se para lançá-la contra ele.

Rafael ainda acompanhava a queda do corpo do querubim quando percebeu o movimento. Abriu as asas e voou imediatamente em direção ao orc. Pousou diante da criatura e ergueu a lança, pronto para atacar.

Antes que pudesse desferir o golpe, porém, o orc atacou com o braço livre pelo lado esquerdo de Rafael, justamente pelo seu lado cego. Rafael não conseguiu reagir a tempo.

O enorme braço o atingiu em cheio e o lançou para longe. Rafael caiu com violência no chão do Pátio.

O orc permaneceu parado, olhando para o arcanjo caído. Pouco atrás dele, o minotauro também interrompeu o avanço.

Gabriel evitou olhar para trás. Mesmo ouvindo os gritos de dor dos querubins que tentavam conter a quimera, continuou avançando em direção aos Aposentos de Deus.

Demônios começaram a surgir em seu caminho. Gabriel não diminuiu a velocidade. Suas duas espadas atingiam apenas os que tentavam interceptá-lo, abrindo passagem enquanto ele seguia em frente. Os ferimentos provocados pelas relíquias não derramavam sangue.

Quando finalmente alcançou os Aposentos de Deus, Gabriel viu, logo abaixo, Lúcifer caído entre os escombros. Ele estava sentado e encostado em um dos poucos trechos da parede que ainda permaneciam de pé após o clarão. Vestia uma armadura negra, mas o ombro e parte do lado direito do peitoral estavam destruídos, deixando a pele exposta. Próxima a ele, caída no chão, estava sua espada negra atravessada por veios vermelhos.

Gabriel não parou para observá-lo. Pousou imediatamente ao lado de Deus.

— PAI! Está tudo bem?

Seus olhos encontraram o ferimento que atravessava o peito do Pai. Gabriel soltou as duas relíquias no chão e se ajoelhou ao lado Dele. Sem pensar, colocou as mãos sobre a ferida e pressionou-a, tentando desesperadamente conter o sangue. As lágrimas começaram a escorrer por seu rosto. Continuou pressionando o ferimento, mas aquilo não era suficiente.

Com muita dificuldade, Deus ergueu a mão direita, ainda coberta de Seu próprio sangue, e tocou o rosto de Gabriel. Seus dedos deixaram uma marca vermelha sobre a face do filho.

— Meu filho… Me perdoe. Isso é culpa Minha…

— Não, Pai… — Gabriel O interrompeu. — Não fale. Por favor… não fale.

Deus continuou:

— Gabriel… proteja o Messias. Ela é a única esperança de salvação da humanidade. Não deixe nenhum mal acontecer com Ela.

Gabriel ainda mantinha as mãos sobre o ferimento do Pai quando ouviu uma voz atrás de si.

— Então é por isso que o Senhor está nessas condições…

Gabriel virou o rosto. Lúcifer já estava de pé. Em sua mão, segurava a espada negra atravessada por veios vermelhos.

— Um novo Messias… — continuou ele. — O Senhor vai cometer o mesmo erro novamente. Sabe que isso não vai funcionar.

Gabriel imediatamente estendeu a mão em direção a uma das espadas caídas no chão. Lúcifer atacou de baixo para cima. Gabriel agarrou sua relíquia e começou a erguê-la para se defender, mas percebeu que não teria tempo. A lâmina negra estava prestes a alcançá-lo quando uma intensa luz dourada surgiu diante de seu corpo. A espada de Lúcifer atingiu a barreira de luz. Um forte clarão dourado tomou os Aposentos, enquanto pequenas brasas se espalharam pelo ar.

— Meu filho… não faça isso… — pediu Deus.

Ele tossiu e cuspiu sangue.

Gabriel permaneceu ajoelhado, com a espada ainda erguida diante do corpo. A luz dourada que o havia protegido começou a enfraquecer até desaparecer completamente.

Lúcifer permaneceu diante deles, segurando a espada negra.

— Acha que vai conseguir salvar o Messias?

Então atacou novamente.

Antes que a espada alcançasse Gabriel, um novo clarão dourado explodiu nos Aposentos. Brasas se espalharam pelo ar. Um escudo havia interceptado a espada de Lúcifer.

Miguel surgiu entre Gabriel e Lúcifer, sustentando o golpe com o escudo. Antes de sua queda, Lúcifer havia sido o mais forte entre os anjos de Deus.

A espada negra continuou pressionando o escudo. Outro clarão dourado brilhou no ponto de contato, acompanhado por pequenas brasas. Algumas atingiram o escudo e a armadura de Miguel. O arcanjo sentiu o calor atravessar o metal, mas não recuou.

Então a lâmina avançou. Parte do escudo de Miguel foi cortada pela espada de Lúcifer.

Mesmo assim, Miguel permaneceu firme, mantendo o próprio corpo e o escudo entre Lúcifer e Gabriel. Sem tirar os olhos de Lúcifer, falou:

— Vá e proteja o Messias.

Gabriel olhou para Miguel e percebeu que o irmão estava sem sua espada. A relíquia que havia deixado atravessada no pé do orc não estava mais com ele. Gabriel entregou a Miguel a espada curta que segurava. Em seguida, voltou-se para Deus. Com cuidado, ajudou o Pai a Se apoiar e beijou Sua testa.

— Eu escolho proteger o Messias.

Deus sustentou o olhar do filho. Por alguns instantes, nenhum dos dois disse nada. Lágrimas escorreram pelo rosto de Deus.

Gabriel apanhou sua outra relíquia do chão e saiu de trás de Miguel.

A espada de Lúcifer ainda pressionava o escudo danificado. Aproveitando a abertura, Gabriel avançou e tentou atingi-lo.

Lúcifer arrancou a espada do escudo com violência. O movimento lançou Miguel para o lado. Gabriel atacou. Lúcifer desviou da lâmina e imediatamente partiu atrás dele. Miguel voltou a se colocar em seu caminho. Agora empunhava uma das espadas curtas de Gabriel. Ergueu o escudo danificado e bloqueou o avanço de Lúcifer.

— Agora eu sou o seu oponente.

Gabriel parou, olhou uma última vez para o Pai e então abriu as asas e deixou os Aposentos de Deus.

Rafael ainda estava caído, sentindo o impacto do golpe do orc, quando viu a criatura se aproximar mancando. O orc ergueu a clava e a desceu em sua direção. Rafael rolou para o lado no último instante. A clava atingiu violentamente o chão e destruiu o ponto onde ele estivera momentos antes. A terra se abriu sob o impacto, e a vegetação ao redor ficou chamuscada pelo calor da clava.

Rafael fincou a lança no chão e começou a se levantar, usando-a como apoio. Antes que conseguisse ficar completamente de pé, o minotauro avançou e atacou com o machado. O machado atingiu a lança de Rafael. Um intenso clarão dourado explodiu entre as duas armas, acompanhado por uma chuva de brasas. Algumas atingiram a armadura e as asas de Rafael. Ele sentiu pequenas queimaduras onde tocaram, mas não teve tempo de reagir. A força do impacto o lançou para o lado.

O orc e o minotauro começaram a rir.

— Era você que ia nos segurar? — provocou o orc.

Antes que os dois avançassem novamente, um grande grupo de querubins surgiu de diferentes pontos do Pátio e rapidamente se colocou entre Rafael e as criaturas. Os querubins de defesa ergueram seus escudos. Os lanceiros se posicionaram logo atrás.

O orc e o minotauro avançaram juntos. Clava e machado atingiram a formação quase ao mesmo tempo. O calor sobrenatural das duas armas acompanhou os golpes. Os querubins sentiram o calor atravessar suas armaduras enquanto as armas rompiam a formação. A defesa se rompeu. Querubins foram lançados para todos os lados, abrindo novamente o caminho.

Ainda caído, Rafael ergueu o rosto. Não havia mais ninguém entre ele e as duas criaturas. Estava sozinho diante dos dois.

Gabriel atravessava o Pátio em direção aos Aposentos do Messias.

Mais adiante, a quimera ainda tentava se livrar dos querubins. A cada movimento, alguns eram mortos ou lançados para longe, mas outros imediatamente ocupavam seus lugares e voltavam a agarrá-la. Então ela avistou Gabriel.

— Chega de brincar com essas criancinhas.

A quimera golpeou com a foice. A lâmina atingiu um dos querubins, que ficou preso à arma. Mesmo ferido, o pequeno soldado agarrou a haste negra com as duas mãos. O calor da foice começou a queimar suas mãos. Ele gritou de dor, mas não a soltou.

— Você não vai sair daqui… — disse, ainda agarrado à arma. — Você não vai atrás do arcanjo Gabriel.

A quimera segurou a foice com força e desferiu um movimento violento contra os querubins que ainda a cercavam. O pequeno soldado preso à lâmina foi partido ao meio.

Em seguida, abriu as asas e ganhou altura. Alguns querubins ainda permaneciam agarrados ao seu corpo, mas a quimera girou com força no ar, lançando-os para longe. Lançou-se atrás de Gabriel e, pouco depois, colocou-se diretamente à frente dele, bloqueando seu caminho.

Gabriel parou no ar. Apertou o cabo da única espada que ainda carregava.

— Saia… da… minha… frente.

A quimera começou a rir.

— Hummm… você perdeu um dos seus brinquedinhos.

Gabriel avançou. Desferiu um golpe com a espada, mas a quimera desviou. Gabriel aproveitou o movimento, girou o corpo e acertou um chute diretamente em seu rosto. Ela foi pega de surpresa. Antes que pudesse reagir, Gabriel completou o giro e passou a espada por seu abdômen. A relíquia celestial abriu um corte na criatura. Não houve sangue. Por alguns instantes, uma luminosidade dourada permaneceu visível no interior da ferida.

Gabriel não ficou para continuar a luta. Abriu as asas e disparou novamente em direção aos Aposentos do Messias.

A quimera levou a mão ao abdômen e acompanhou Gabriel com os olhos. Foi então que percebeu: ele estava com sangue no rosto e chorando. O sorriso desapareceu de seu rosto.

— O que está acontecendo, anjinho…?

Então abriu as asas e partiu atrás dele.

Gabriel avançou em alta velocidade. Nada poderia fazê-lo parar.

Um demônio surgiu em seu caminho. Gabriel passou por ele sem diminuir a velocidade, e sua espada atravessou o corpo da criatura em um único golpe.

Outro tentou interceptá-lo, mas Gabriel o decapitou.

Um terceiro surgiu pela lateral. O arcanjo simplesmente o atingiu com o próprio corpo e o lançou para fora de seu caminho. Não havia mais tempo para lutar. Seu único objetivo era chegar ao Messias.

Gabriel alcançou o outro lado do Templo, atravessou um dos grandes arcos e entrou, ainda em voo, no corredor que conduzia aos Aposentos do Messias. A porta já estava próxima.

Diante dela, os querubins enviados por Miguel ainda mantinham a posição. O corredor carregava as marcas da batalha. Alguns estavam feridos; outros permaneciam imóveis no chão. Corpos de demônios se espalhavam ao redor, enquanto os poucos invasores restantes ainda enfrentavam os soldados celestiais.

Um dos querubins viu Gabriel se aproximando.

— Meu Comandante! Conseguimos proteger a porta dos Aposentos do Messias!

Gabriel não diminuiu a velocidade.

— Abram.

Os querubins imediatamente abriram passagem. Enquanto alguns continuavam combatendo os demônios restantes, outros alcançaram a enorme porta de mármore.

O sol dourado no centro se dividiu ao meio quando as duas folhas começaram a se abrir. Gabriel atravessou a entrada em voo.

Dentro dos Aposentos, tudo continuava como antes. No centro, sobre o grande sol dourado incrustado no piso, estava o berço. O Messias ainda dormia.

Gabriel diminuiu a velocidade. Suas asas se recolheram enquanto seus pés tocaram o chão ao lado do berço. Olhou para a pequena bebê. As lágrimas ainda escorriam por seu rosto, misturando-se à marca de sangue que Deus havia deixado em sua face.

A voz do Pai continuava em sua mente.

Proteja o Messias.

Gabriel respirou fundo.

— Pai… eu prometo. Nada vai acontecer com Ela. Eu escolho protegê-La.

Estendeu os braços em direção ao Messias. Então sentiu o calor atrás de si e arregalou os olhos.

A quimera atravessou a entrada dos Aposentos em alta velocidade. Pela primeira vez, sua foice não estava apontada para Gabriel. Estava apontada para o berço.

A lâmina negra desceu.

O berço foi partido ao meio.

O calor da foice deixou o ferro dourado marcado ao longo do corte. O colchão e os lençóis foram rasgados e chamuscados, e pequenas chamas começaram a consumir as bordas do tecido.

A quimera ficou imóvel. Não havia ninguém ali.

Alguns metros adiante, Gabriel pairava no ar. A bebê estava protegida contra seu peito. Gabriel a segurava com um dos braços. Na outra mão, mantinha sua espada erguida.

A quimera voltou os olhos para ele e sorriu.

— Hummm… então era por isso que você estava com tanta pressa, anjinho.

Miguel permaneceu diante de Lúcifer. Poucos metros ao lado dos dois, Deus continuava caído entre os escombros. Miguel manteve o escudo danificado erguido e a espada curta de Gabriel firme na outra mão.

— Me diga o que você quer. Por que invadiu o Céu?

Lúcifer manteve os olhos em Deus.

— Não é da sua conta.

Miguel avançou. Tentou atingir Lúcifer com o escudo, mas ele apenas inclinou o corpo e deixou o golpe passar. Miguel imediatamente atacou com a espada. Lúcifer desviou novamente. Os dois movimentos pareceram não exigir esforço algum. Mesmo ferido pelo ataque que havia recebido de Deus, Lúcifer se movia como se Miguel não representasse uma ameaça. Miguel ainda não havia conseguido sequer tocá-lo. Nunca imaginara que a diferença entre os dois fosse tão grande.

Lúcifer então atacou. A espada negra avançou diretamente em direção ao pescoço de Miguel. Antes que a lâmina o alcançasse, uma barreira dourada surgiu diante dele. A espada de Lúcifer atingiu a luz. Um intenso clarão dourado explodiu entre os dois, acompanhado por pequenas brasas.

A voz enfraquecida de Deus veio logo atrás deles:

— Filho… não faça isso com o seu irmão.

Lúcifer permaneceu olhando para Miguel. Então riu.

— Estes são os Seus comandantes? — perguntou, voltando os olhos para Deus. — Comandantes que precisam da Sua proteção?

A luz dourada começou a enfraquecer. Pouco a pouco, a barreira desapareceu por completo. Lúcifer não hesitou. Com um único movimento, a espada negra atravessou o antebraço direito de Miguel. O membro foi decepado. A espada curta de Gabriel caiu no chão junto com o antebraço.

— AAAAAAH!

Miguel caiu de joelhos. Com a mão esquerda, firmou o escudo no chão e se apoiou na relíquia para não tombar. Sangue escorria pelo braço. Ao redor do corte, a carne havia sido queimada pelo calor da espada de Lúcifer, e uma fina fumaça subia do ferimento.

Miguel ergueu os olhos, tomado pela dor e pela fúria.

— Desgraçado… eu vou te matar!

Lúcifer se aproximou. Encostou a lâmina negra sob o queixo de Miguel e ergueu seu rosto com a espada. O calor começou a queimar sua pele, fazendo uma fina fumaça subir do ponto de contato. Seus olhos ficaram frente a frente.

— Você é fraco — disse Lúcifer. — Não vai conseguir salvar o seu Senhor.

Lançou um olhar para Deus antes de voltar a encarar Miguel.

— Olhe para o seu Senhor. Essa é a sua desonra.

Lúcifer afastou a espada e virou as costas. Miguel permaneceu de joelhos, apoiado no escudo. Seu corpo tremia, mas ele se recusava a cair. Foi então que compreendeu.

— Foi você…

Lúcifer parou.

— Os demônios sem asas… é você que os mantém aqui.

Lúcifer respondeu sem se voltar completamente:

— Enquanto eu permanecer no Céu, eles não precisam de asas.

Lúcifer continuou caminhando em direção a Deus, enquanto lágrimas escorriam por seu rosto.

— MEU SENHOR! — gritou Miguel. — Não faça isso, seu monstro!

Ainda de joelhos e apoiado no escudo, Miguel não conseguia impedi-lo. Deus olhou para Miguel. Depois voltou os olhos para Lúcifer. Não havia raiva. Não havia ódio. Apenas compaixão.

Lúcifer parou diante Dele e se ajoelhou.

— Seu comandante é fraco… — disse, olhando para Deus. — Foi Você que fez isso, Pai. Eu não queria… mas Você está errado. Eu não tenho outro jeito.

Lúcifer se aproximou e abraçou Deus. Por um instante, Pai e filho permaneceram juntos.

Então, ainda abraçado ao Pai, Lúcifer cravou a espada negra em Seu peito.

A lâmina atravessou Seu coração e saiu por Suas costas.

Um intenso clarão dourado explodiu nos Aposentos.

A luz atravessou a enorme abertura deixada pela destruição e se espalhou por todo o Céu. No Pátio, querubins e demônios pararam.

Rafael voltou o olhar para a origem da luz. Todos fizeram o mesmo, voltando-se para os Aposentos de Deus.