Livro I · A Queda

Capítulo VII

A Queda do Céu

“A luz brilha nas trevas, e as trevas não a derrotaram.”

— João 1:5
Índice
Texto

— NÃÃÃO!

O grito de Miguel ecoou por todo o Templo. O clarão dourado invadiu os corredores.

No Pátio, Rafael continuava olhando para os Aposentos de Deus quando ouviu o grito. O orc também olhou naquela direção. O minotauro, porém, ignorou completamente o que havia acontecido.

Rafael caiu de joelhos. As lágrimas começaram a escorrer por seu rosto.

— Meu Criador…

O minotauro se aproximou sem demonstrar qualquer reação. Ergueu uma das pernas e acertou Rafael no rosto com seu enorme casco. O impacto quebrou a mandíbula do arcanjo. Rafael cuspiu sangue. Alguns dentes foram lançados pelo chão antes que seu corpo tombasse. Não disse mais nada e permaneceu caído, respirando com dificuldade.

Gabriel ainda estava no ar, a poucos metros do berço destruído, com o Messias junto ao peito, quando o clarão dourado invadiu o corredor e alcançou parte dos Aposentos do Messias. Então o grito de Miguel ecoou nos Aposentos.

Gabriel ficou imóvel.

— Meu Pai…

Seus olhos voltaram a se encher de lágrimas. Ele apertou o Messias contra o peito e voltou o olhar para a quimera.

— Saia da minha frente…

— Hummm… acho que acabou — disse a quimera, rindo.

Gabriel partiu para cima dela. A quimera lançou um golpe com a foice, mas Gabriel se abaixou no último instante. Aproveitando o impulso, passou pela lateral da criatura e cravou a relíquia profundamente na parte externa de sua coxa.

Não houve sangue. Uma luminosidade dourada permaneceu visível no interior do ferimento.

Gabriel tentou puxar a relíquia, mas ela estava presa. Então soltou o cabo e continuou voando.

A quimera gritou de dor e caiu no chão. Virou-se, olhando Gabriel se afastar. Pela primeira vez, perdeu completamente a compostura. Agarrou o cabo da relíquia cravada em sua coxa e a arrancou com violência.

— GABRIEL!

Miguel permanecia de joelhos, olhando fixamente para Lúcifer. Seus olhos azuis haviam perdido o foco. Ele continuava imóvel, em choque, sem reação. Não conseguira proteger aquele que era mais importante para ele. Seu Senhor havia morrido diante de seus olhos.

À sua frente, Lúcifer chorava. O corpo de Deus começava a desaparecer em meio ao clarão dourado. Lúcifer viu o rosto do Pai sumindo pouco a pouco diante de seus olhos. Mesmo enquanto desaparecia, Deus ainda o olhava com carinho.

— Pai… me perdoe. Você não me deu escolha. Eu serei um Deus muito melhor que o Senhor.

Lúcifer se levantou e caminhou até Miguel. O arcanjo continuava de joelhos. Lúcifer ergueu a mão e, com as costas dela, acertou um tapa no rosto de Miguel.

Miguel caiu de costas no chão. Seu escudo quebrado permanecia preso ao braço esquerdo. Sangue escorreu pela boca de Miguel e pelo ferimento no braço decepado.

Lúcifer o observou. Um pequeno sorriso surgiu no canto de sua boca. Então se afastou e caminhou em direção à parede destruída. Parou diante da abertura e contemplou todo o Templo do Céu.

Por toda parte estavam as consequências da batalha: destruição, corpos e sangue. Mesmo diante de tudo aquilo, Lúcifer observava o Templo com admiração. Então voltou sua atenção para o Pátio, levou a mão ao rosto e enxugou as lágrimas. Lúcifer abriu suas asas negras e lançou voo em direção ao orc e ao minotauro.

Gabriel atravessou a entrada e deixou os Aposentos do Messias.

— Fechem a porta!

Os querubins obedeceram imediatamente. Gabriel continuou pelo corredor e, ao alcançar o primeiro arco, atravessou-o e deixou o interior do Templo. Não seguiu em direção ao Pátio. Ela permanecia protegida contra seu peito.

Pouco depois, a quimera rompeu a porta. Tomada pela fúria, avançou pelo corredor, golpeando e esquartejando todos que encontrava pela frente. Um dos querubins ficou preso na lâmina de sua foice, e a quimera o ergueu diante do rosto.

— Cadê o Gabriel?

O querubim não respondeu. A quimera o lançou contra o chão.

A quimera olhou para o Pátio e viu Lúcifer. Imediatamente abriu as asas e voou em sua direção.

Lúcifer pousou diante do orc e do minotauro. Os dois se ajoelharam imediatamente. A quimera pousou ao lado deles e também se ajoelhou.

— Meus generais.

Os três responderam:

— Meu Mestre.

Lúcifer observou os três e voltou o olhar para o minotauro.

— Pelo menos um de vocês conseguiu cumprir o seu dever.

Em seguida, olhou para a quimera.

— Quimera… cadê Gabriel?

Ela ergueu o olhar para ele.

— Ele fugiu com uma bebê nos braços.

Lúcifer caminhou até ela e acertou um tapa em seu rosto.

— Sua inútil! Como você deixou o Messias fugir? Vá e busque Miguel.

Em seguida, apontou para Rafael e olhou para o minotauro.

— Pegue este e leve-o para a prisão.

Lúcifer abriu as asas negras e ganhou altura. Do alto, procurou por Gabriel até encontrá-lo ao longe. Mudou imediatamente de direção e partiu atrás dele.

A quimera abriu as asas e voltou aos Aposentos de Deus. Ao encontrar Miguel caído, avançou sem hesitar. Com as grandes garras, agarrou Miguel pelas asas, perfurando uma asa com cada pata. Com dificuldade, conseguiu erguê-lo e ganhou altura, carregando Miguel pendurado.

O minotauro caminhou em direção a Rafael, ainda com o braço ferido pela lança do arcanjo. Ao alcançá-lo, agarrou Rafael e o ergueu do chão. Em seguida, jogou-o sobre o ombro.

Gabriel continuou voando para longe do Templo. De repente, Lúcifer surgiu à sua frente. Gabriel parou no ar.

— Lúcifer…

Ele apertou o Messias contra o peito. Lúcifer apenas estendeu a mão.

— Me dê Ela. Eu vou criá-La melhor do que Deus. Ela será perfeita… Com Ela, vamos endireitar este mundo.

Gabriel soltou uma risada curta, sem qualquer humor. Naquele momento, já não sabia o que sentir.

— Você…

Ele apertou ainda mais o Messias contra o peito.

— Meu Pai pediu que eu cuidasse Dela. Você não vai tocar Nela.

Gabriel abriu as asas e tentou fugir. Lúcifer o observou se afastar.

— Na verdade, eu não preciso de um novo Messias.

Ele puxou sua espada e partiu atrás de Gabriel.

Lúcifer desferiu um golpe na direção dos dois. Gabriel conseguiu desviar, mas não completamente. A espada de Lúcifer atingiu Gabriel pelas costas.

A asa esquerda foi completamente cortada. Mais da metade da direita também foi arrancada pelo golpe. A parte traseira da armadura foi destruída quase por completo, expondo suas costas ao calor da relíquia. O lado esquerdo foi atingido com muito mais violência, mas parte do direito também ficou queimada. Sangue escorreu dos ferimentos, enquanto fumaça subia das áreas atingidas.

Gabriel gritou.

O Messias despertou com o grito e começou a chorar. Gabriel tentou se manter no ar, mas suas asas já não eram suficientes para mantê-lo no Céu. Seu corpo começou a cair. Sem controle, girava no ar enquanto mantinha a bebê protegida contra o peito.

Lúcifer permaneceu no alto, observando a queda. Gabriel e o Messias continuaram descendo até desaparecerem de sua vista.

Lúcifer voltou para o Templo e parou no ar, acima do centro do Pátio.

— Todos vocês…

Aos poucos, todos pararam. Lúcifer ergueu a voz para que todo o Pátio pudesse ouvi-lo.

— Seu Deus está morto. Seus arcanjos foram todos derrotados. Vocês não têm mais defesas.

Seus olhos percorreram os querubins abaixo.

— O novo Messias morreu.

Lúcifer abriu as asas negras.

— Agora contemplem o seu novo Deus.

Os querubins começaram a chorar. Um após o outro, caíram de joelhos. Lúcifer observou o Pátio por alguns instantes. Então desceu e pousou. Sem dizer mais nada, começou a caminhar em direção aos Aposentos de Deus.

Mais acima, a quimera permanecia no ar, carregando Miguel. Desde que o erguera, a dor do ferimento que Gabriel havia deixado em sua coxa aumentava. Sustentar o peso do arcanjo se tornava cada vez mais difícil. Até que suas forças cederam e ela o soltou.

Miguel começou a cair, ainda com o escudo preso ao braço esquerdo. Mas não parou no Templo. As perfurações haviam inutilizado suas asas. Sem elas, Miguel já não conseguia permanecer no Céu. Miguel continuou caindo até desaparecer da vista de todos.

Lúcifer seguia pelos corredores do Templo sem pressa, observando tudo ao seu redor. Conhecia aqueles caminhos. Durante muito tempo, havia percorrido aqueles mesmos corredores como um dos comandantes de Deus. Agora caminhava por eles como vencedor.

Ao chegar aos Aposentos de Deus, atravessou a entrada destruída e passou pelos escombros. Entrou no quarto e parou no centro. Seu olhar foi para o lugar onde Deus havia morrido. Restava apenas o sangue de Deus no chão.

Lúcifer caminhou lentamente até o local e se ajoelhou. Permaneceu em silêncio por alguns instantes.

— Pai… agora eu vou cuidar de tudo.

Levantou-se e caminhou em direção à varanda. Parou diante das portas, colocou uma mão em cada folha, respirou fundo e as empurrou.

Lúcifer permaneceu ali por alguns instantes, admirando o horizonte. Depois caminhou até a varanda e apoiou as duas mãos no parapeito.

Olhou para a Terra. Tentou enxergar o que estava acontecendo no mundo dos homens, mas não conseguiu. Lúcifer franziu a testa e se concentrou. Tentou novamente. Nada.

Então tentou ouvir. Procurou pelas orações, pelos pedidos e pelas vozes dos homens. Não ouviu nada. Lúcifer permaneceu imóvel e tentou mais uma vez. Nada.

— Eu matei Deus… O Messias está morto. Por que não estou conseguindo?

Continuou olhando para a Terra.

— Será…?

Mas, em algum lugar da Terra, uma esfera dourada começou lentamente a desaparecer. Dentro dela estava Gabriel, caído, com as asas mutiladas e o corpo gravemente ferido.

Ainda assim, mantinha o Messias protegida entre seus braços.

Continua…