Livro I · A Queda

Capítulo IV

A Resistência

“…para que possais resistir no dia mau e, havendo feito tudo, ficar firmes.”

— Efésios 6:13
Índice
Texto

O clarão dourado diminuía aos poucos, assim como as brasas que ainda flutuavam pelo corredor destruído.

Rafael permanecia sob o enorme machado, sustentando-o com a própria lança. Os braços tremiam e as pernas ameaçavam ceder. Buscava forças onde já não parecia haver nenhuma. Uma queimadura recente marcava seu braço, e alguns pontos da túnica estavam chamuscados pelas brasas do impacto.

Atrás dele, os dois querubins que haviam tentado abrir a porta ainda se recuperavam do impacto. Pequenas queimaduras marcavam suas peles e armaduras. Mesmo assim, voltaram aos escombros e começaram a remover as pedras que ainda cobriam parte da armadura de Rafael.

Os poucos querubins que restavam no corredor perceberam o que estava acontecendo. Rafael segurava sozinho o minotauro.

— Vamos defender o nosso comandante!

Flechas cortaram o corredor. Querubins avançaram com espadas e lanças, atacando o gigante por todos os lados. As lâminas golpeavam seu corpo, e as pontas das lanças tentavam perfurá-lo, mas nenhuma delas conseguia abrir um ferimento.

A criatura apenas desviou os olhos para o lado. Retirou o machado da lança de Rafael e, sem sequer se virar, descreveu um único arco horizontal com a arma.

A lâmina atingiu um dos querubins e o arrastou consigo. O ferimento escureceu imediatamente sob o calor da arma, e pequenos fios de fumaça se misturaram ao sangue. O pequeno corpo foi lançado contra os demais durante o movimento, derrubando uns e mutilando outros. Sangue e corpos atravessaram o corredor até o machado completar o arco.

O gigante voltou à posição como se nada tivesse acontecido.

— Esses insetos estão me atrapalhando.

O gigante voltou os olhos para Rafael e para os dois querubins atrás dele. Ergueu novamente o machado. Veios vermelhos percorriam o metal negro, enquanto o calor emanado pela arma fazia o ar ao redor da lâmina tremular.

Rafael virou um pouco mais o rosto para acompanhar o movimento com o único olho que lhe restava.

Então avançou. A lança penetrou o tríceps da criatura e atravessou completamente seu braço, rompendo pelo bíceps. Não houve sangue. Por alguns instantes, uma luminosidade dourada permaneceu visível no interior das duas aberturas do ferimento antes de começar a desaparecer.

A criatura parou, baixou lentamente os olhos para Rafael e gargalhou.

Miguel ainda observava a destruição causada pela queda dos escombros. Querubins e demônios tentavam se recompor em meio à terra revolvida, à vegetação esmagada e aos grandes blocos de mármore espalhados pelo Pátio. Seus olhos se ergueram até o corredor parcialmente destruído, e sua preocupação aumentou ainda mais.

Ele se levantou, encontrou o orc e partiu em sua direção.

— SAIA DO MEU CAMINHO!

O orc avançou para recebê-lo e desferiu um golpe com a clava. Miguel desviou para o lado. A arma atingiu o chão com violência e, antes que o gigante pudesse erguê-la novamente, Miguel avançou com a espada em direção ao seu pescoço.

O orc ergueu o enorme braço esquerdo e golpeou o escudo de Miguel.

O impacto o arremessou para trás. Miguel deslizou pelo chão antes de conseguir se firmar novamente. Ergueu o rosto. Estava perdendo tempo. Se continuasse lutando daquela forma, jamais chegaria aos Aposentos de Deus.

Miguel abriu as asas e, com um forte impulso, deixou o chão.

Mas não chegou muito longe.

O orc estendeu o braço e agarrou uma de suas asas pelas penas. Miguel arregalou os olhos. Com um único movimento, a criatura o puxou de volta e o lançou violentamente para longe.

Miguel foi arremessado por vários metros pelo Pátio antes de atingir o chão.

O orc permaneceu onde estava. Abriu lentamente a mão. Algumas penas brancas de Miguel ainda estavam presas entre seus dedos. Deixou-as cair e apoiou a clava sobre o ombro.

— Eu já falei para você correr.

Gabriel voltou os olhos para o corredor destruído. A imagem de Rafael veio imediatamente à sua mente: ferido, debilitado e sozinho diante daquela destruição. Não podia continuar ali. Aproveitando a confusão provocada pelos escombros, virou o corpo e disparou em direção ao corredor.

A quimera percebeu e foi atrás dele.

— Anjinho… não se esqueça. VOCÊ É MEU.

A voz se aproximou rapidamente por trás. A quimera acelerou e desferiu um golpe de foice de cima para baixo. Gabriel girou no ar e cruzou as duas espadas diante do corpo, formando um X. A lâmina da foice atingiu exatamente o centro das duas armas.

No impacto, um intenso clarão dourado explodiu entre eles, enquanto brasas se espalharam por todos os lados. Algumas brasas voltaram a atingir Gabriel. O calor queimou seu rosto e deixou novas marcas escuras sobre a armadura. Ainda assim, ele permaneceu suspenso no ar, segurando a foice presa entre as duas espadas. Então girou os punhos, afastou a arma e obrigou a quimera a recuar.

Gabriel interrompeu o voo e ficou de frente para ela. Avançou com toda a velocidade. A quimera também partiu em sua direção e atacou com a foice. Gabriel desviou do golpe no último instante, passou pela lateral da criatura e, durante o movimento, uma de suas espadas abriu um corte em seu rosto.

Nenhuma gota de sangue escorreu. Uma luminosidade dourada surgiu no interior do ferimento e permaneceu visível por alguns instantes antes de começar a desaparecer.

A quimera parou. Levou lentamente a mão até o rosto e passou a ponta dos dedos sobre o corte. Observou-os e, então, levou um deles à boca.

Lambeu.

Seu olhar mudou. Havia reprovação em seu rosto. Ela esperava sentir o gosto do sangue.

Virou-se lentamente para Gabriel.

— Interessante… não tem sangue.

Gabriel manteve as duas espadas erguidas.

— Nossas armas celestiais não fazem vocês sangrarem.

A quimera olhou para as duas espadas nas mãos de Gabriel e abriu um sorriso.

— Então é isso que seus brinquedinhos fazem…

Ela ergueu a própria foice.

— As nossas relíquias demoníacas…

Próximo a eles, um querubim enfrentava um demônio no ar. A quimera avançou repentinamente e atravessou o querubim pelas costas. A lâmina da foice rompeu seu peito, e sangue escorreu pelo metal.

O querubim arregalou os olhos. A quimera o puxou para perto e arrancou a foice de seu corpo. Antes que ele pudesse despencar, agarrou-o pelos cabelos e o manteve suspenso. Então passou a língua pelo sangue que cobria a lâmina.

Seu rosto se iluminou de satisfação.

— Elas queimam onde tocam… e continuam queimando por um bom tempo.

O querubim agonizava em suas mãos, cuspindo sangue enquanto pequenos fios de fumaça subiam dos ferimentos deixados pela foice.

Gabriel ficou imóvel, chocado com a cena.

A quimera percebeu. Seu sorriso aumentou.

Ela encostou novamente a lâmina da foice no peito do querubim e começou a rasgá-lo.

Ele gritou.

— Olha, anjinho… além de queimar, sangra.

A quimera manteve os olhos fixos em Gabriel.

— É isso que armas de verdade deveriam fazer.

O corpo do querubim perdeu as forças. A quimera simplesmente abriu a mão, e ele despencou.

Gabriel acompanhou sua queda. A raiva tomou conta dele. Apertou com força os cabos das duas espadas e disparou em direção à quimera, com as lâminas posicionadas para o ataque.

Ela viu Gabriel se aproximar e sorriu.

Com a foice, puxou para sua frente o demônio que, momentos antes, lutava contra o querubim.

Gabriel já estava perto demais.

As duas espadas cortaram.

Os golpes que deveriam atingir a quimera atravessaram o corpo do demônio, dividindo-o em três partes. Nenhuma gota de sangue foi derramada. Por alguns instantes, uma luminosidade dourada permaneceu visível no interior dos cortes.

A quimera permaneceu logo atrás, sorrindo.

Ela havia entendido. Agora sabia como tirar Gabriel do sério.

Bastava ferir alguém diante dele.

A quimera continuava sorrindo. Então virou as costas para Gabriel e começou a voar na direção oposta. Gabriel a observou, sem entender.

Logo adiante, um grupo de querubins combatia demônios no ar.

A quimera avançava diretamente para eles, com a foice já preparada para o ataque. Gabriel arregalou os olhos e disparou. Voou por baixo dela e conseguiu ultrapassá-la no último instante, colocando-se entre a quimera e os querubins.

A foice desceu. Gabriel ergueu uma das espadas e bloqueou o golpe. No impacto, um clarão dourado explodiu e brasas se espalharam pelo ar. Algumas atingiram Gabriel e alguns dos querubins próximos, enquanto outras continuaram caindo pelo ar, perdendo o brilho até se apagarem. Ao mesmo tempo, Gabriel atacou com a segunda espada.

A quimera desviou para o lado, girou no ar, recuperou a foice e parou diante dele. Gabriel permaneceu entre ela e os querubins.

A quimera olhou para o lado. Mais abaixo, outro grupo de querubins combatia demônios no ar. Seu sorriso aumentou, e ela partiu naquela direção.

— Não!

Gabriel foi atrás. Dessa vez, porém, não conseguiu alcançá-la.

A quimera passou pelo grupo em alta velocidade e, durante o movimento, desferiu um único golpe com a foice. A lâmina cortou um dos querubins ao meio. Sangue se espalhou pelo ar. As bordas do ferimento escureceram imediatamente, queimadas pelo contato com a relíquia demoníaca, enquanto fios de fumaça surgiam dos dois lados do corpo.

As duas partes do querubim despencaram do céu.

A quimera já procurava outro grupo. Gabriel disparou atrás dela.

— A sua luta é comigo! Pare!

Ela continuou voando. Então parou e se virou lentamente para Gabriel, ainda sorrindo.

Ela havia conseguido exatamente o que queria.

Gabriel estava furioso.

Miguel respirava com dificuldade. Sua armadura estava coberta de poeira, arranhões, marcas dos sucessivos impactos e queimaduras deixadas pelas brasas. Ergueu o rosto e olhou para o céu. Lá no alto, viu Gabriel enfrentando a quimera e acompanhou o irmão com os olhos.

— Não adianta olhar para cima.

A voz do orc fez Miguel voltar sua atenção para ele. A criatura permanecia à sua frente, com a clava apoiada sobre o ombro.

— Você não vai a lugar nenhum.

O orc abriu um sorriso.

— Eu já falei que você devia correr. Mas, já que decidiu ficar…

Deu um passo à frente e apoiou a clava com mais força sobre o ombro.

— Seu lugar é aqui comigo.

O minotauro continuou gargalhando. Então ergueu o braço ferido, arrancando a lança das mãos de Rafael. A arma permaneceu atravessada em seu braço, de um lado ao outro.

Rafael não tentou recuperá-la. Seu olhar percorreu o corredor destruído. Blocos de mármore cobriam o chão, colunas estavam partidas e parte da estrutura havia cedido com os golpes do minotauro. O calor acumulado nos sucessivos impactos começava a se espalhar pelo corredor, enquanto o ar tremulava sobre alguns trechos do mármore. Se permanecessem ali por muito mais tempo, não resistiriam àquele calor.

Então percebeu.

Mais adiante, uma parte do corredor estava severamente danificada. Grandes rachaduras atravessavam o mármore, e a estrutura ao redor parecia muito mais comprometida que o restante.

Rafael voltou o olhar para o minotauro. Precisava afastá-lo daquela região antes que alcançasse novamente os querubins e os Aposentos de Deus.

Agora sabia para onde levá-lo.

— Comandante!

Rafael virou o rosto. Os mesmos dois querubins que permaneciam junto aos escombros haviam conseguido libertar as peças restantes.

— Conseguimos! Recuperamos o restante da sua armadura!

O minotauro baixou os olhos para a lança que ainda atravessava seu braço. Agarrou a haste e a arrancou de uma só vez. Nenhuma gota de sangue saiu do ferimento.

Observou a lança em sua mão. Então voltou a atenção para os querubins que carregavam as partes restantes da armadura de Rafael.

Sem hesitar, arremessou-a contra eles.

Rafael arregalou o olho.

— Cuidado!

Os querubins saltaram em direções opostas, cada um ainda segurando uma parte da armadura.

A lança passou entre os dois e se cravou com violência na parede.

Rafael voltou o olhar para sua relíquia. Depois, para a parte fragilizada do corredor. Precisava recuperar a lança. E agora sabia como faria isso — e como levaria o minotauro exatamente para onde precisava.

O minotauro voltou o olhar para Rafael.

Rafael se moveu primeiro. Saltou para o lado e apanhou uma das espadas caídas sobre o mármore. Sem perder tempo, avançou contra o minotauro e desferiu um golpe na lateral de seu joelho.

A lâmina atingiu a criatura.

Nada aconteceu.

A espada comum sequer conseguiu ferir sua pele.

Rafael arregalou o olho.

O minotauro virou lentamente o corpo em sua direção e ergueu o enorme machado acima da cabeça.

O braço ferido não acompanhou o movimento com a mesma força. O peso da arma pareceu exigir mais esforço da criatura.

Rafael percebeu o golpe e se jogou para o lado. O machado desceu com violência.

A lâmina atingiu o mármore onde Rafael estivera um instante antes.

O impacto ainda rachou o chão, mas não com a mesma força dos golpes anteriores. O mármore ao redor da lâmina escureceu imediatamente, queimado pelo calor da relíquia, enquanto pequenos fios de fumaça começaram a subir das fissuras.

Rafael olhou para o machado cravado no chão. Depois, para as novas rachaduras. E então percebeu outra coisa. O ferimento no braço estava enfraquecendo o minotauro. Um pequeno sorriso surgiu em seu rosto.

O plano estava funcionando.

O minotauro arrancou o machado do chão e o ergueu novamente. O braço ferido tornou o movimento mais pesado, mas não o impediu de atacar. Desferiu outro golpe contra Rafael. Rafael se jogou para o lado. O machado atingiu o mármore mais uma vez.

O impacto abriu novas rachaduras pelo chão, embora novamente com menos força que os golpes anteriores. O calor da relíquia queimou a superfície ao redor da lâmina, aumentando ainda mais a temperatura do corredor.

Rafael sentiu uma gota de suor escorrer pela lateral do rosto. Passou rapidamente o antebraço pela testa, sem tirar o olho do minotauro.

Mais adiante, os dois querubins continuavam junto aos escombros. Haviam deixado ali as partes da armadura de Rafael e agora tentavam arrancar sua lança da parede. O calor também começava a alcançá-los. Um deles respirava com mais dificuldade, enquanto o outro limpou o suor da testa antes de voltar a segurar a haste. Ainda assim, aquilo não os impediu de continuar tentando recuperar a relíquia de seu comandante.

Rafael não havia dado nenhuma ordem. Não precisava. Os querubins haviam entendido que, naquele momento, recuperar a relíquia de seu comandante era mais importante do que recuperar sua armadura.

Rafael viu os dois querubins tentando arrancar sua lança da parede. Abriu as asas e, com um forte impulso, iniciou um voo rasante pelo corredor. Passou pelo minotauro em alta velocidade.

A criatura estendeu o braço para agarrá-lo. Rafael precisou virar mais o rosto para acompanhar o movimento e desviou no último instante, continuando o voo.

Pouco antes de alcançar os querubins, algo junto aos escombros chamou sua atenção: uma das peças da proteção de sua perna.

Rafael mergulhou, apanhou-a sem interromper o voo e voltou a ganhar altura. Ainda em movimento, encaixou a peça da armadura na perna.

À frente, os dois querubins continuavam puxando a lança. Rafael chegou até eles e segurou a parte traseira da haste. Os três puxaram juntos. A lança não cedeu.

Rafael firmou as mãos na haste, abriu completamente as asas e bateu-as com força, usando o próprio voo para impulsionar o corpo para trás. Dessa vez, a lança se desprendeu da parede.

Rafael ficou suspenso no ar, com sua relíquia novamente nas mãos. Olhou para os dois querubins e fez um breve aceno com a cabeça. Não havia tempo para dizer mais nada.

Virou-se e disparou de volta contra o minotauro. A criatura ainda começava a girar o corpo quando Rafael passou por sua lateral. A ponta da lança rasgou um dos lados de seu rosto.

Não houve sangue. Por alguns instantes, uma luminosidade dourada permaneceu visível no interior do corte antes de começar a desaparecer.

Atravessou o espaço ao lado da criatura e parou alguns metros à frente, ainda suspenso no ar. Próximo dali, um dos grandes arcos do corredor se abria para o Pátio. Além da abertura, era possível ver a terra revolvida, a vegetação destruída e os combates que ainda aconteciam lá embaixo. Rafael girou o corpo e apontou a lança para o minotauro.

A criatura virou lentamente o rosto em sua direção. Os dois se encararam.

Rafael manteve o corpo um pouco mais voltado, garantindo que o minotauro permanecesse dentro do campo de visão de seu único olho.

Não desviou o olhar.

O minotauro avançou.

Começou a voar para trás, mantendo o corpo levemente inclinado para que a criatura permanecesse dentro de seu campo de visão. O machado veio em sua direção. Rafael virou mais o rosto para acompanhar o golpe e desviou no ar.

O ferimento no braço continuava cobrando seu preço. O minotauro ainda conseguia erguer o enorme machado, mas cada ataque exigia mais esforço e já não carregava a mesma força de antes.

Outro golpe veio. Rafael recuou novamente. O suor já escorria com mais intensidade por seu rosto, e o calor acumulado no corredor tornava sua respiração mais pesada.

O minotauro continuou avançando, golpe após golpe, enquanto Rafael recuava pelo corredor. Ele não fugia. Conduzia a criatura exatamente para onde queria.

Então Rafael parou.

Abriu as asas para reduzir o impulso e pousou.

Sob seus pés, grandes rachaduras atravessavam o mármore. Colunas partidas e fissuras profundas denunciavam o quanto aquela parte do corredor havia sido comprometida.

Era o lugar que havia observado antes.

Rafael apoiou a extremidade inferior da haste da lança no chão e encarou o minotauro.

A criatura continuava avançando, erguendo o enorme machado e preparando o golpe.

Rafael não recuou. Esperou.

Quando a criatura chegou perto o bastante, Rafael ergueu a lança e golpeou violentamente a extremidade da haste contra o chão.

O impacto percorreu o mármore já comprometido. As rachaduras que atravessavam aquela parte do corredor se abriram de uma só vez. O piso começou a ceder, e grandes blocos se desprenderam em direção ao Pátio.

Rafael abriu as asas e deixou o chão. O minotauro perdeu o equilíbrio enquanto o mármore desmoronava sob seus pés. Tentou se firmar e cravou a lâmina do machado no que ainda restava da estrutura.

Por um instante, conseguiu se segurar.

Então aquela parte do corredor também se rompeu.

O minotauro despencou. Pedras e enormes blocos de mármore caíram junto com ele enquanto seu corpo desaparecia entre os escombros que desabavam sobre o Pátio.

O estrondo tomou o campo de batalha.

Querubins e demônios interromperam seus combates e olharam para cima. Miguel voltou os olhos para o corredor destruído. O orc fez o mesmo. No céu, Gabriel e a quimera interromperam o confronto.

Rafael ficou suspenso no ar acima da abertura deixada pelo desabamento, observando os escombros abaixo.

Os dois querubins que o acompanhavam desde os Aposentos de Deus aproveitaram aquele momento. Recolheram as partes restantes de sua armadura e voaram até ele.

— Meu Comandante!

Rafael ficou no ar enquanto os dois o ajudavam a recolocar as peças que ainda faltavam.

Pouco a pouco, sua armadura, predominantemente branca e com detalhes dourados, voltou a ficar completa.

Rafael olhou para baixo e desceu em direção ao Pátio, pousando atrás de Miguel.

Miguel virou o rosto, e seus olhos passaram rapidamente pelos ferimentos do irmão.

— Você está bem?

— Não é hora para isso — respondeu Rafael.

Miguel voltou os olhos para os Aposentos de Deus.

— E o nosso Senhor?

Rafael permaneceu em silêncio por um instante.

— Desde que recuperei a consciência, ninguém passou por mim. Mas não conseguimos abrir a porta.

Miguel voltou sua atenção para o campo de batalha.

Entre os escombros, o minotauro começou a se mover. Pedras deslizaram de seu enorme corpo enquanto ele se erguia novamente.

Rafael firmou a lança. Miguel apertou o cabo da espada e ergueu o escudo.

Os dois arcanjos se prepararam para o combate.

No céu, Gabriel permanecia suspenso no ar, observando a destruição. Grande parte do corredor havia desabado sobre o Pátio. Seus olhos procuraram Rafael.

Quando o encontrou lá embaixo, vivo, Gabriel respirou aliviado. Então olhou para os Aposentos de Deus. Mesmo em meio a toda aquela destruição, a porta continuava intacta.

— Anjinho…

Gabriel virou o rosto.

A quimera já avançava em sua direção, com a foice preparada para o ataque.

— Não tire os olhos de mim.

A foice veio contra ele. Gabriel ergueu uma das espadas e desviou a lâmina. No choque entre as duas relíquias, um clarão dourado explodiu e brasas se espalharam pelo ar.

Gabriel atacou imediatamente com a outra espada. A quimera recuou no ar, escapando da lâmina.

E começou a rir.

No Pátio, Miguel mantinha os olhos no orc. Rafael encarava o minotauro. Acima deles, Gabriel voltou a erguer as duas espadas diante da quimera.

Os três arcanjos estavam novamente diante de seus adversários.

Então, um clarão dourado irrompeu de dentro dos Aposentos de Deus.

A parede lateral voltada para o Pátio foi destruída de dentro para fora. O mármore se rompeu violentamente, lançando enormes fragmentos para o exterior enquanto boa parte do teto dos Aposentos desabava junto com a estrutura.

Todos pararam.

Miguel ergueu os olhos.

— Meu Senhor!

Gabriel se virou no ar.

— Meu Pai!

Rafael olhou imediatamente para os Aposentos.

— Criador!

O brilho dourado ainda atravessava a enorme abertura deixada pela destruição.