A batalha diante dos Aposentos de Deus continuava. Alguns querubins já carregavam ferimentos pelo corpo. Um deles permanecia caído sobre o mármore, enquanto outros ainda sustentavam a formação. Do outro lado, vários demônios jaziam espalhados pelo corredor, atravessados por lanças, flechas ou abatidos pelas espadas dos querubins.
Mas não importava quantos caíssem. Outros continuavam surgindo. Quanto mais os querubins matavam, mais demônios pareciam ocupar seus lugares.
Rafael permanecia alguns passos atrás da formação, ainda apoiado sobre a lança que havia recebido. Sua respiração continuava pesada. O único olho percorria o corredor, acompanhando cada movimento dos querubins e cada avanço dos invasores.
Próximos à porta dourada, os dois querubins continuavam tentando abri-la, sem sucesso. Rafael tentou localizar Gabriel e virou mais o rosto para a esquerda. Não conseguiu localizar o irmão.
Rafael ficou imóvel. A preocupação surgiu em seu semblante, mas não havia tempo para isso.
Sua mão começou a perder força ao redor da lança. Rafael olhou para os próprios dedos e respirou fundo. Com a mão livre, puxou a faixa que envolvia sua túnica e começou a soltá-la. Passou o tecido ao redor da mão que segurava a lança e apertou uma volta. Depois outra. Se seus dedos deixassem de responder, a lança continuaria presa à sua mão.
Foi então que um demônio atravessou a linha de defesa.
Rafael ainda terminava de apertar a faixa quando a criatura avançou diretamente em sua direção. Rafael não teve tempo para reagir.
O querubim que havia lhe entregado a lança percebeu primeiro. Sem hesitar, lançou-se entre os dois.
O golpe o atingiu em cheio.
Rafael ergueu o rosto, o olho se arregalando. O pequeno querubim permaneceu por um instante diante dele. Então seu corpo perdeu as forças.
Antes que o demônio pudesse avançar novamente, um dos querubins lanceiros reagiu. Com um movimento rápido, enterrou a ponta da lança na cabeça da criatura.
O demônio tombou para a frente e caiu sobre o querubim que acabara de salvar Rafael.
Rafael ficou imóvel. Depois se abaixou e, com esforço, empurrou o corpo do demônio para o lado, retirando-o de cima do pequeno querubim. Em seguida, segurou cuidadosamente o querubim e o virou de frente.
Rafael observou o rosto do querubim.
— Você foi um bom soldado.
Com a ponta dos dedos, fechou delicadamente os olhos do querubim e permaneceu assim por mais um instante.
Então ergueu a cabeça.
À sua frente, os querubins continuavam lutando. Escudos recebiam golpes sem parar. Lanças avançavam entre as pequenas aberturas da formação. Flechas cruzavam o corredor enquanto novos demônios continuavam surgindo por trás dos que tombavam.
Rafael observou tudo em silêncio. Aquela defesa não resistiria por muito mais tempo. Até aquele momento, haviam apenas resistido. E estavam perdendo.
Tentou ignorar a dor que atravessava seu corpo e acompanhou o movimento dos demônios. Eles avançavam em grande número, pressionando os escudos e forçando os querubins a recuar pouco a pouco. Continuar parado significava apenas esperar que a defesa fosse quebrada.
Precisavam recuperar o corredor.
— Arqueiros! Quatro de vocês, avancem! Dois de cada lado!
Os querubins obedeceram imediatamente. Quatro arqueiros deixaram a retaguarda e avançaram pelas laterais do corredor, dividindo-se em lados opostos.
Rafael apontou a lança para a linha de frente.
— Escudos, avancem! Lanceiros, logo atrás! Ataquem pelas aberturas!
A formação começou a se mover. Os querubins com escudos avançaram juntos, empurrando a linha demoníaca para trás. Logo atrás deles, os lanceiros atacavam pelos espaços entre os escudos, perfurando os demônios que tentavam se aproximar. Nas laterais, os quatro arqueiros disparavam continuamente, atingindo aqueles que buscavam cercar a formação.
— Espadachins, mantenham a retaguarda! Se algum deles atravessar a linha, cuidem dele!
Os espadachins assumiram posição. Os seis arqueiros que permaneceram atrás de Rafael mantiveram os arcos erguidos, cobrindo o alto do corredor e impedindo que os demônios alados passassem por cima da formação.
A estratégia começou a funcionar. Pela primeira vez, os querubins deixaram de apenas ceder terreno. A linha avançou, recuperando pouco a pouco parte do corredor.
Mas os demônios continuavam pressionando. Três deles conseguiram atravessar a formação.
Os espadachins reagiram imediatamente e interceptaram o primeiro. Os outros dois tentaram avançar, mas os arqueiros da retaguarda dispararam antes que conseguissem alcançar Rafael.
Então outro demônio rompeu a linha. Rafael apertou a mão contra a lança. A criatura avançou.
Mesmo ferido, Rafael firmou o corpo e lançou a arma para a frente. A ponta atravessou o demônio, e o impacto quase o fez perder o equilíbrio.
Rafael segurou a lança com as duas mãos. Sua respiração estava pesada.
Mas permaneceu de pé.
O corpo do demônio continuava empalado na arma.
No Pátio do Templo, a batalha era ainda mais sangrenta.
Se nos corredores os inimigos podiam ser contados às dezenas, ali pareciam ser milhares. Querubins e demônios se enfrentavam por toda parte. Espadas se chocavam, lanças atravessavam corpos e flechas cortavam o céu em meio aos combatentes alados. O chão do Pátio quase desaparecia sob a quantidade de corpos espalhados. O negro dos demônios mortos se misturava ao vermelho do sangue dos querubins, como se a própria guerra tivesse pintado o Pátio do Templo.
No meio de toda aquela brutalidade, Miguel mantinha os olhos no orc. Não podia perder mais tempo. Seu Senhor precisava dele.
Miguel avançou e atacou com um golpe direto, buscando uma abertura para encerrar o confronto o mais rápido possível. O orc ergueu a clava. Veios vermelhos percorriam o metal negro, enquanto o calor emanado pela arma fazia o ar ao redor tremular.
As armas se chocaram. Um clarão dourado explodiu entre elas, lançando brasas pelo ar. Algumas atingiram a armadura de Miguel, deixando pequenas marcas escuras sobre sua superfície.
Miguel mudou imediatamente o ângulo da espada e atacou outra vez. A clava tornou a interceptá-lo. Novo clarão. Mais brasas.
Miguel girou o corpo e golpeou de outro ângulo. Outro bloqueio. Atacou novamente. Nada.
O orc quase não precisava sair do lugar. A enorme clava se movia de um lado para o outro, interceptando cada investida antes que a lâmina dourada pudesse alcançá-lo.
Miguel apertou os dentes. Não importava de onde atacasse. Aquela criatura parecia uma parede.
Uma parede que precisava atravessar.
Miguel ergueu os olhos por um instante. Acima do Pátio, entre querubins e demônios que se enfrentavam nos ares, encontrou Gabriel. Seu irmão já vestia a própria armadura.
Miguel respirou aliviado. Ao menos Gabriel já estava de armadura.
Então seus olhos buscaram o acesso aos corredores que levavam aos Aposentos de Deus. Demônios também avançavam por ali. O alívio desapareceu.
— Meu Senhor… Rafael…
Miguel voltou os olhos para o orc.
— Saia do meu caminho, demônio! Preciso chegar ao meu Senhor!
O orc apenas sorriu. Deu um passo para trás. Depois outro. Miguel acompanhou o movimento, sem entender.
O orc parou próximo à abertura que dava acesso ao corredor e ergueu a enorme clava.
Miguel percebeu.
— Não!
A clava atingiu a estrutura. O impacto sacudiu o Pátio. O mármore se partiu, e grandes blocos se desprenderam das paredes enquanto uma nuvem de poeira engolia a entrada.
O orc golpeou novamente. Outra parte da estrutura desabou sobre a passagem.
Logo, aquele acesso ao corredor estava soterrado.
Miguel permaneceu olhando para os escombros.
Rafael mantinha a ponta da lança apoiada no chão. O corpo do demônio que havia empalado ainda permanecia preso à arma quando um forte tremor percorreu o corredor.
O impacto foi tão intenso que alguns querubins perderam o equilíbrio. Demônios também tombaram entre os querubins. Rafael cambaleou, mas conseguiu firmar a lança contra o mármore e permaneceu de pé.
Observou a batalha. Como tudo aquilo havia acontecido?
Sua mente voltou para poucas horas antes. Deus enfraquecido diante dele. E suas próprias palavras.
— A criação do Messias consumiu muito de Sua força. Criador… o Senhor deveria estar descansando.
Rafael sabia que o estado de seu Criador era preocupante. Mas jamais imaginara aquilo.
Seu olhar voltou para o corredor.
Então ouviu uma risada. Distante. Grave. Demoníaca. Vinha do fundo do corredor.
Rafael estreitou o olho.
O chão tremeu. Uma vez. Depois outra. E outra. Cada impacto parecia se aproximar.
Então… parou.
Por um momento, apenas o som da batalha permaneceu.
Até que algo diferente atravessou o corredor. Um ruído crescente. Rápido. Violento. Como uma enorme lâmina rasgando o próprio ar.
Rafael ergueu o rosto.
Algo negro surgiu ao longe, girando em uma velocidade absurda. Veios vermelhos percorriam sua superfície.
O objeto atravessou o primeiro demônio que encontrou no caminho. O corpo foi partido ao meio. A carne cortada escureceu imediatamente, queimada pelo contato com a lâmina. Fios de fumaça negra surgiram do ferimento enquanto as duas partes despencavam, espalhando sangue pelo mármore.
O objeto continuou. Atingiu outro demônio. Depois outro. Não diminuía.
Bateu contra o teto do corredor, arrancando pedaços de mármore e deixando uma longa rachadura na estrutura. No ponto de impacto, o mármore escureceu imediatamente, como se o calor da lâmina tivesse penetrado a pedra. O impacto alterou sua trajetória e o lançou em direção ao chão.
Alguns demônios conseguiram se afastar. Outros não. A lâmina atravessou tudo o que encontrou pela frente até alcançar a linha de escudos.
Os querubins tentaram firmar a formação.
Foi inútil.
O impacto destruiu os escudos como se não fossem nada. Três querubins foram atingidos diretamente, seus corpos despedaçados pela força do golpe.
Os lanceiros atrás deles tentaram se afastar. Alguns conseguiram. Um deles não teve a mesma sorte. A lâmina passou por seu braço e arrancou o membro.
O querubim gritou. Sangue escorreu do ferimento enquanto a carne ao redor do corte queimava. Fumaça negra começou a subir de seu ombro.
Os querubins da retaguarda se jogaram para os lados.
O objeto continuava vindo.
Diretamente para Rafael.
Ele ainda segurava a lança, com o corpo do demônio empalado na ponta.
Rafael não sabia de onde tirou forças. Ergueu a arma e, quando o objeto se aproximou, golpeou-o com tudo o que ainda possuía. O corpo do demônio preso à ponta recebeu o impacto primeiro.
A trajetória do objeto mudou.
Por pouco a enorme lâmina passou ao lado de Rafael e atingiu violentamente a parede próxima à porta dourada dos Aposentos de Deus. O mármore explodiu, e no ponto atingido a pedra escureceu e começou a irradiar calor, como se a lâmina tivesse deixado parte de sua temperatura presa ali.
Antes que Rafael pudesse recuperar o equilíbrio, o objeto voltou. Ainda girando. Ainda mais rápido.
Rafael percebeu e se jogou no chão.
A lâmina passou a poucos centímetros de seu corpo. Uma onda de calor atravessou sua pele.
Rafael arregalou o olho.
Aquela sensação…
Era semelhante.
O calor lembrava o que ainda queimava o corte que destruíra seu olho esquerdo.
Olhou para a lança caída ao seu lado. O corpo do demônio que permanecia preso à ponta estava completamente queimado.
Rafael voltou o olhar para o corredor. O objeto continuava retornando em alta velocidade.
Então…
Uma enorme mão surgiu entre os demônios e o segurou no ar. O giro cessou imediatamente.
Rafael ficou no chão, olhando para frente. Agora conseguia enxergar o objeto com clareza.
Era um machado de duas lâminas. Negro, coberto por veios vermelhos incandescentes e praticamente do tamanho do próprio Rafael.
Por trás dos demônios, começou a surgir um braço enorme coberto de pelos. A mão segurava o gigantesco machado como se seu peso não significasse nada. Aos poucos, o restante da criatura apareceu. Um tronco largo e descomunal ocupou quase toda a largura do corredor e, acima dele, surgiu uma enorme cabeça de touro, cercada por pelos negros e coroada por dois chifres imensos.
O minotauro deu um passo à frente. Suas pernas eram grossas e musculosas, terminando em grandes cascos. Todo o seu corpo era negro e não possuía asas. Vestia apenas uma peça curta de couro escuro presa à cintura, sem qualquer tipo de armadura.
Rafael percorreu a criatura com o único olho que lhe restava.
Mais uma criatura sem asas conseguia permanecer no Céu.
Ergueu lentamente o rosto. A criatura era grande demais para aquele lugar. Mesmo curvada, sua cabeça quase tocava o teto do corredor.
Então ela rugiu.
O som reverberou pelas paredes. Em seguida, começou a se levantar, endireitando as costas e os enormes ombros até que seus chifres atingiram o teto.
O mármore se rompeu, mas a criatura continuou se levantando como se a estrutura não existisse. A cabeça e os chifres atravessaram o teto do corredor, arrancando enormes blocos de mármore e lançando pedaços da estrutura em todas as direções.
Alguns dos blocos de mármore voaram em direção ao Pátio do Templo.
Um grande fragmento despencou diretamente sobre a cabeça do orc e se partiu no impacto. Ele permaneceu imóvel e apenas ergueu os olhos para o alto.
— Ele já começou.
Miguel também percebeu os destroços vindo em sua direção. Ergueu o escudo e recebeu o impacto de um grande pedaço de mármore, que se despedaçou diante dele. Outro caiu ao seu lado.
Então viu um querubim caído mais adiante. O pequeno querubim estava ferido e não conseguia sair do caminho. Acima dele, um enorme bloco de mármore despencava.
Miguel não hesitou. Correu até o querubim e chegou no último instante, colocando-se sobre ele e erguendo o escudo.
O bloco atingiu sua defesa com violência. Miguel firmou os pés no chão e recebeu todo o impacto. Debaixo dele, o querubim permaneceu protegido.
Quando ergueu os olhos, porém, viu o estrago ao redor. Grandes blocos de mármore haviam se cravado na terra e esmagado partes da vegetação. Querubins e demônios permaneciam soterrados entre os escombros, enquanto outros, que haviam conseguido escapar, tentavam se recompor em meio à destruição.
Miguel havia salvado aquele pequeno querubim.
Não conseguira salvar todos.
No ar, Gabriel ainda enfrentava a quimera quando um enorme fragmento de mármore surgiu girando em direção aos dois. Ambos perceberam a tempo e se afastaram para lados opostos. O bloco passou violentamente entre eles e continuou sua trajetória pelo Pátio.
Gabriel acompanhou o fragmento e olhou para trás. Grande parte do teto do corredor havia desaparecido. Restavam apenas trechos da estrutura, arcos quebrados e partes das paredes ainda de pé. Entre as ruínas, uma criatura gigantesca se movia pelo corredor. Mesmo à distância, Gabriel conseguia distinguir sua enorme cabeça de touro e os grandes chifres que se erguiam acima do que restava das paredes.
Outros pedaços de mármore atravessavam o campo de batalha. Alguns querubins e demônios conseguiam desviar; outros eram atingidos em pleno voo e despencavam junto com os escombros.
A quimera também olhou para a destruição.
— Ele continua deselegante como sempre.
Gabriel acompanhou o olhar da quimera. Por um instante, conseguiu observar todo o Pátio do Templo. A batalha se estendia por toda parte. Querubins e demônios se enfrentavam no chão e nos ares, enquanto corpos se acumulavam sobre a terra e a vegetação do Pátio.
Gabriel voltou os olhos para a quimera.
— O que vocês querem? Como invadiram o Templo?
Não esperou pela resposta. Avançou e desferiu um golpe com uma das espadas contra o pescoço da criatura. Queria decapitá-la ali mesmo.
Ela voou para trás e escapou da lâmina. Gabriel já vinha com a segunda espada e golpeou de cima para baixo.
A quimera ergueu a foice. Veios vermelhos percorriam o metal negro da arma, enquanto o calor emanado por ela fazia o ar ao redor da lâmina tremular.
As armas se chocaram. Um clarão dourado explodiu entre os dois, espalhando brasas pelo ar. Algumas atingiram Gabriel. Uma queimou de leve seu rosto, enquanto outras deixaram pequenas marcas escuras sobre sua armadura. Outras atingiram a quimera, mas não lhe causaram qualquer efeito.
A criatura sorriu.
— Calma, meu anjinho… Logo, logo, suas perguntas serão respondidas. Isso se você conseguir sobreviver…
Gabriel não perdeu tempo. Girou o corpo com toda a velocidade e atacou com as duas espadas.
A criatura tornou a recuar, desviando dos golpes. Gabriel interrompeu o avanço e voou para trás, mantendo as duas espadas erguidas. Seus olhos permaneceram fixos nela.
A criatura também não desviou o olhar. Lambeu os lábios novamente e sorriu para ele.
Rafael desviou o olhar do minotauro e voltou-se para a lança que havia recebido do querubim, caída ao seu lado. O corpo queimado do demônio ainda permanecia preso à ponta. Segurou a haste com as duas mãos e, com esforço, quebrou-a logo abaixo do cadáver. A parte superior caiu sobre o mármore junto com o corpo, enquanto Rafael firmava o restante da arma contra o chão e o utilizava para se levantar.
Quando ficou de pé, olhou ao redor. A formação que havia organizado praticamente não existia mais. Escudos destruídos e armas quebradas estavam espalhados pelo corredor. Alguns querubins tentavam socorrer os feridos, enquanto outros buscavam novamente suas posições. Até mesmo os demônios que haviam sobrevivido ao machado pareciam hesitar, mantendo distância da enorme criatura, como se também temessem ficar em seu caminho.
Rafael virou o rosto e conseguiu enxergar parte do Pátio do Templo através das aberturas do corredor. Ao longe, Gabriel continuava lutando nos ares contra a quimera.
Então viu algo mais próximo. Um querubim voava em sua direção, carregando sua armadura e sua lança.
Rafael apertou a haste quebrada que usava como apoio e tentou avançar ao encontro dele.
Atrás dos demônios, a enorme criatura rugiu novamente. Rafael parou.
O gigante ergueu o machado e desferiu um único golpe de baixo para cima.
A lâmina atingiu o teto. No ponto de impacto, o mármore escureceu e o calor se espalhou pela pedra antes que ela se rompesse.
O mármore explodiu.
Uma nova chuva de pedras foi lançada pelo corredor e em direção ao Pátio do Templo. Grandes blocos giravam pelo ar enquanto querubins e demônios tentavam escapar. Alguns conseguiram desviar no último instante; outros foram atingidos em pleno voo e despencaram junto com os fragmentos. No chão, combatentes dos dois exércitos corriam para fora das trajetórias dos escombros enquanto enormes pedaços de mármore se chocavam contra a terra, esmagavam a vegetação e espalhavam destroços pelo Pátio.
Um deles seguiu diretamente na direção do querubim que carregava a armadura de Rafael.
O pequeno querubim não conseguiu desviar. A pedra o atingiu em pleno voo, e ele despencou.
Rafael acompanhou sua queda.
— Não…
O querubim caiu junto com a armadura e desapareceu sob os grandes blocos de mármore que desabaram logo depois, a poucos metros da porta dourada dos Aposentos de Deus.
Rafael apenas olhou para os escombros. Então percebeu, entre as pedras, uma parte de sua lança ainda para fora.
Desamarrou a faixa que mantinha sua mão presa à haste quebrada da lança do querubim, mas conservou o que restava da arma como apoio.
A criatura começou a andar. Não desviava dos corpos, das armas ou dos próprios demônios. Simplesmente avançava, pisando em qualquer coisa que estivesse à sua frente. Cada passo provocava mais destruição. Seu corpo era grande demais para o corredor e, à medida que caminhava, os ombros, a cabeça e os chifres quebravam o que ainda restava do teto.
Rafael não podia perder tempo. Apoiando-se na haste quebrada, avançou o mais rápido que seu corpo permitia em direção aos escombros onde havia visto sua lança. Cada passo exigia esforço. Alguns demônios perceberam sua movimentação e tentaram alcançá-lo, mas flechas disparadas pelos querubins atravessaram as criaturas antes que chegassem até ele.
Quando finalmente alcançou os escombros, encontrou o pequeno querubim preso sob um enorme bloco de mármore. Parte da armadura permanecia soterrada junto dele, enquanto a lança de Rafael se projetava para fora das pedras.
Rafael segurou a própria arma e a posicionou sob o bloco. Fez força, os braços tremendo com o esforço. Usando a lança como alavanca, conseguiu erguer a pedra o suficiente para afastá-la do pequeno querubim.
O querubim ainda estava vivo. Agonizando, ergueu os olhos para Rafael.
E sorriu.
Não era um sorriso de alívio. Era o sorriso de alguém que sabia que havia conseguido cumprir sua missão.
Rafael olhou para ele antes de voltar a atenção para os escombros.
Com o bloco afastado, conseguiu retirar melhor sua lança. A longa haste branca trazia pequenos detalhes dourados ao longo da estrutura. Na extremidade superior, a lâmina dourada refletia a luz constante do Céu; na base, um contrapeso dourado completava a arma.
Parte da armadura também estava acessível. Rafael conseguiu retirar o peitoral e um dos braceletes, mas o restante continuava preso sob grandes blocos de mármore.
Os dois querubins que permaneciam próximos à porta correram até Rafael. Ele começou a vestir o que havia conseguido recuperar enquanto os dois observavam as peças que ainda permaneciam soterradas.
Um deles se virou para Rafael.
— Nós recuperaremos o restante da sua armadura.
Rafael olhou para os dois querubins.
— Não. Tentem ver como está o nosso Criador.
Um deles balançou a cabeça.
— Não podemos deixá-lo assim, comandante. Nenhum de nós é páreo para aquela criatura.
O outro querubim olhou para o minotauro que avançava pelo corredor.
— O senhor recuperou sua lança, mas só ela não será suficiente. Sem a armadura, não terá chance de vencê-lo.
O primeiro querubim se aproximou dos escombros.
— Dê-nos alguns instantes. Recuperaremos o restante.
Rafael olhou para os dois. Então acenou com a cabeça.
Apoiou a lança no chão e respirou fundo.
O lado esquerdo continuava mergulhado na escuridão. Sempre que precisava acompanhar algo naquela direção, era obrigado a virar mais o rosto, e seus movimentos ainda carregavam hesitação. Não estava acostumado àquela limitação. Apenas começava a entender como continuar lutando apesar dela.
Então voltou sua atenção para a enorme criatura.
O gigante continuava avançando pelo corredor, destruindo o que restava da estrutura apenas com o próprio corpo.
Mais adiante, os dois querubins permaneciam junto aos escombros, tentando liberar o restante da armadura de Rafael.
Rafael apertou a lança.
O minotauro se aproximou.
Um dos querubins ergueu o rosto.
A criatura também os viu.
Sem diminuir o passo, segurou o enorme machado com as duas mãos e o ergueu acima da cabeça.
Rafael percebeu o que iria acontecer.
— Cuidado!
Os dois querubins olharam para cima.
O machado começou a descer.
Rafael avançou.
Colocou-se entre os dois querubins e o golpe, segurou a lança com as duas mãos e a ergueu acima da própria cabeça.
As armas se chocaram.
Um clarão dourado explodiu pelo corredor, enquanto brasas se desprenderam do machado negro e se espalharam em todas as direções.
Algumas atingiram Rafael. Uma delas caiu sobre seu braço, queimando sua pele; outras caíram sobre a túnica, deixando o tecido chamuscado.
Parte das brasas passou por ele e atingiu também os dois querubins. Um deles protegeu o rosto com o braço, enquanto o outro se encolheu junto aos escombros. Pequenas queimaduras surgiram onde as brasas tocaram suas peles e armaduras.
Rafael sentiu todo o peso do golpe atravessar seus braços. Seus joelhos cederam alguns centímetros, e a força do impacto percorreu seu corpo até os pés.
O mármore sob ele se rachou.
As fissuras se espalharam pelo chão enquanto o enorme machado continuava pressionando a lança para baixo. Rafael cerrou os dentes. Seus braços tremiam, mas ele não recuou.
Atrás dele, os dois querubins continuavam vivos. Feridos pelas brasas, mas protegidos do machado.
Mais ao fundo, a porta dourada dos Aposentos de Deus continuava intacta.
Pela primeira vez, a criatura baixou os olhos para Rafael.