Os querubins permaneciam firmes diante dos Aposentos de Deus. Os que carregavam escudos formavam a primeira linha de defesa. Atrás deles, os lanceiros mantinham suas armas apontadas para o corredor. Mais acima, os arqueiros permaneciam suspensos no ar, com as asas abertas e os arcos já armados, atentos a qualquer movimentação. Nenhum deles abandonara sua posição.
Gabriel continuava ajoelhado ao lado de Rafael. Seu olhar permanecia fixo no profundo ferimento que atravessava o lado esquerdo do rosto do irmão. As bordas do corte continuavam escurecidas, e pequenos fios de fumaça ainda escapavam da ferida. A preocupação estampava seu rosto. Apoiou delicadamente uma das mãos sobre o ombro de Rafael.
— Irmão…
Nenhuma resposta. Gabriel aproximou-se um pouco mais.
— Irmão…
Rafael permaneceu imóvel. Gabriel respirou fundo e segurou seu ombro com um pouco mais de firmeza. Sua voz ecoou pelo corredor.
— RAFAEL!
Os dedos da mão direita de Rafael moveram-se levemente. Gabriel soltou o ar que nem havia percebido estar prendendo, e um discreto sorriso de alívio surgiu em seu rosto.
— Graças ao Pai…
Com extremo cuidado, passou um braço por trás das costas do irmão e o ajudou a sentar-se sobre o mármore. Rafael respirou profundamente. Seu corpo ainda parecia pesado, e ele permaneceu imóvel por alguns instantes.
Abriu lentamente o olho direito. A visão ainda estava completamente turva. Piscou uma vez, depois outra. As formas começaram a ganhar nitidez. Rafael franziu a testa. Algo estava errado. Instintivamente, tentou abrir o olho esquerdo.
Nada.
Apenas escuridão.
Levantou a mão até o rosto. Antes que seus dedos alcançassem o ferimento, fragmentos de memória atravessaram sua mente: um calor intenso, o ar sendo rasgado, um corte, uma dor insuportável…
Depois, o vazio.
Rafael voltou o olhar para Gabriel e, ainda confuso, perguntou:
— Gabriel…?
Seu olhar percorreu o corredor. Os querubins permaneciam em formação: escudos erguidos, lanças apontadas e arcos preparados. Todos protegendo a entrada dos Aposentos de Deus. Rafael voltou a olhar para o irmão.
— O que… está acontecendo?
Gabriel segurou Rafael pelos ombros.
— Primeiro me diga… quem fez isso com você?
Rafael ficou em silêncio, tentando organizar as poucas lembranças que ainda possuía.
— Fez… comigo?
Fechou o único olho e forçou a memória. Seu semblante demonstrava esforço. Depois, balançou lentamente a cabeça.
— Eu… Foi rápido demais… Só consegui ver um vulto.
Os querubins ficaram imóveis. Aos poucos, começaram a olhar uns para os outros. A incredulidade estampava seus rostos. Como alguém poderia atravessar a defesa do Céu, ferir um arcanjo e desaparecer sem que ele sequer conseguisse identificar o atacante?
Foi então que um dos querubins desviou o olhar para o rosto de Rafael. Seus olhos se arregalaram. Sem dizer uma palavra, apontou para a ferida. Os demais acompanharam o gesto.
Gabriel voltou a atenção para o irmão. Finos fios de fumaça ainda escapavam do corte, como se a ferida continuasse queimando por dentro.
Rafael também percebeu. Levantou a mão e aproximou os dedos da ferida. Sentiu o calor atravessar sua pele e franziu a testa.
— …Ainda está quente.
Gabriel permaneceu imóvel. As palavras do irmão ecoavam em sua mente. Como Rafael podia não ter conseguido identificar quem o atacou? E por que a ferida ainda queimava? Aquilo era muito mais grave do que imaginava.
Instintivamente, ergueu o olhar para o Pátio do Templo. Entre os grandes arcos do corredor, avistou uma enorme mancha negra avançando.
Não era uma nuvem. Era um exército.
Milhares de demônios avançavam sobre o Templo. Alguns já sobrevoavam o Pátio, enquanto outros cercavam a construção e invadiam diretamente pelos grandes arcos e aberturas dos corredores.
Rafael acompanhou o movimento de Gabriel, virando a cabeça para enxergar o Pátio pelo lado esquerdo, fora do campo de visão de seu único olho. Tentou compreender o que estava acontecendo com o pouco que conseguia alcançar.
Então tentou levantar-se. Assim que apoiou os pés no mármore, seu corpo vacilou. Gabriel o segurou pelo braço.
— Ainda não. Você precisa descansar.
Rafael respirou fundo, apoiou uma das mãos no mármore e voltou a firmar os pés.
— Não é hora para ficar parado.
Gabriel percebeu que não conseguiria convencê-lo. Passou novamente o braço por suas costas e o ajudou a ficar de pé. Rafael tentou apoiar a mão na parede, mas calculou mal a distância. Seus dedos encontraram apenas o vazio. Gabriel o amparou antes que perdesse o equilíbrio.
Rafael respirou fundo. Ainda precisava se acostumar à nova forma de enxergar. Sem o olho esquerdo, até calcular uma distância simples exigia atenção.
Os dois voltaram a atenção para o Pátio. A enorme massa negra que Gabriel havia avistado entre os arcos agora se espalhava sobre os jardins. Mais além, outros demônios cercavam o Templo e entravam por diferentes aberturas. O ataque vinha de todos os lados.
Pela abertura do próprio corredor, novos demônios começaram a surgir. Atrás deles, vieram dezenas de outros. Os querubins cerraram imediatamente a formação diante dos Aposentos de Deus.
Gabriel passou novamente o braço pelas costas de Rafael e o conduziu até a parede ao lado da grande porta dourada. Rafael apoiou-se nela.
Gabriel voltou os olhos para o chão. A poça de sangue e os respingos que havia observado quando chegara ainda estavam espalhados pelo mármore. Então encarou a porta. Rafael havia sido atacado exatamente diante dos Aposentos de Deus.
Gabriel apoiou as duas mãos em uma das folhas douradas e tentou abri-la. A porta não se moveu. Tentou novamente, usando mais força.
— Pai?
Nenhuma resposta.
Gabriel virou-se para dois querubins próximos.
— Me ajudem.
Os querubins correram até ele. Os três tentaram abrir uma das enormes folhas douradas.
Nada.
Um grito ecoou no corredor. Os primeiros demônios haviam alcançado a formação.
Gabriel soltou a porta e se virou.
— Continuem tentando. Se conseguirem entrar, verifiquem como o Pai está.
— Sim!
Gabriel estendeu a mão para um deles.
— Sua espada.
O querubim entregou a arma e voltou imediatamente para junto da porta. A horda continuava avançando.
Gabriel voltou-se para a formação e ergueu a espada.
— Arqueiros… ATAQUEM!
No mesmo instante, os querubins dispararam uma chuva de flechas. O corredor foi tomado pelo som das cordas dos arcos. Flechas cruzavam o corredor. Algumas atravessavam a cabeça dos demônios, outras atingiam seus peitos ou se cravavam nas colunas de mármore. Algumas ricocheteavam pelo chão.
Os primeiros demônios tombaram, mas outros ocuparam imediatamente seus lugares. Depois vieram mais.
Rafael permaneceu apoiado. Então desviou o olhar da batalha. Ao lado dele, os dois querubins ainda tentavam abrir a grande porta dourada dos Aposentos de Deus. Um deles forçava uma das folhas enquanto o outro tentava ajudá-lo.
A porta não se movia.
Rafael franziu a testa. Com esforço, aproximou-se dos dois querubins e segurou uma das folhas douradas junto deles. Os três forçaram a porta.
Nada.
Rafael continuou olhando para ela. Seu corpo ainda vacilava, e ele precisou manter uma das mãos apoiada na própria porta para continuar de pé. Respirou fundo e se virou lentamente, deixando a grande porta dourada às costas.
Diante dele, a horda continuava avançando pelo corredor. Entre os invasores, alguns possuíam asas.
Outros, não.
Rafael franziu a testa.
— Gabriel!
Gabriel desviou a atenção da batalha e olhou para o irmão. Rafael apontou para os demônios que avançavam pelo chão.
— Como seres sem asas conseguem permanecer no Céu?
Gabriel acompanhou o gesto. Seus olhos passaram de um demônio para outro, mas ele não respondeu.
Voltou os olhos para a grande porta dourada.
— Seja como for…
Firmou a espada.
— Ninguém passa por nós.
Miguel permaneceu diante do orc. Seu olhar não se desviava do inimigo. Atrás da gigantesca criatura, o exército demoníaco continuava avançando pelo Pátio do Templo.
Miguel ergueu a espada e, sem tirar os olhos do orc, bradou aos querubins:
— Defendam o nosso Senhor!
Os querubins avançaram para conter a horda demoníaca, enquanto Miguel disparava em direção ao orc. Com um salto, ergueu a espada acima da cabeça e concentrou toda a força em um poderoso golpe vertical.
O gigante reagiu no último instante. Ergueu a enorme clava negra. Os veios vermelhos que percorriam o metal pareciam incandescentes, e o calor emanado pela arma distorcia o ar ao redor.
As duas armas colidiram com violência. Um intenso clarão dourado explodiu no ponto de impacto. Ao mesmo tempo, pequenas brasas foram lançadas pela clava negra e se espalharam pelo ar. Algumas caíram sobre a vegetação próxima, queimando folhas e pequenos trechos de grama. Outras atingiram Miguel. Uma queimou de leve seu rosto, enquanto algumas deixaram pequenas marcas escuras sobre a superfície branca de sua armadura. As demais perderam o brilho e se apagaram ainda no ar.
A onda de impacto percorreu o Pátio do Templo e lançou os cabelos de Miguel para trás. Ainda assim, ele não recuou. O orc também não. Nenhum dos dois havia cedido um único passo.
Miguel sentiu o calor percorrer a espada e apertou ainda mais o cabo da arma. Aos poucos, porém, a temperatura diminuiu, até que a lâmina voltou ao normal.
Um discreto sorriso surgiu no canto da boca do orc. Ele soltou uma forte bufada.
Ao redor deles, o Pátio havia se transformado em um campo de guerra. Demônios tombavam perfurados por lanças, atravessados por flechas ou abatidos pelas espadas dos querubins. Mesmo nos ferimentos mais profundos, nenhum sangue era derramado.
Com os querubins, era diferente. Alguns jaziam despedaçados, com braços e pernas espalhados pelos caminhos de pedra. Outros permaneciam caídos entre a terra e a vegetação, enquanto o sangue marcava o lugar onde haviam tombado.
Mesmo em meio à batalha, Miguel não deixava de observar os querubins. Seu olhar percorreu rapidamente o Pátio até encontrar dois querubins voando com as relíquias e armaduras de Gabriel e Rafael.
Logo atrás deles, vários demônios alados diminuíam a distância. Miguel franziu a testa. Se aqueles querubins fossem alcançados, seus irmãos continuariam lutando sem suas armaduras e sem suas armas. Precisava ajudálos.
Abaixou o corpo, abriu as asas e preparou o impulso. No instante em que deixou o chão…
— Voar…
A voz grave do orc ecoou atrás dele. Miguel mal teve tempo de virar a cabeça. A enorme clava negra já descia em sua direção. Instintivamente, ergueu o escudo.
A clava atingiu o escudo com violência. Outro clarão dourado explodiu no ponto de impacto, espalhando brasas pelo ar. Algumas caíram sobre o caminho de pedra e se apagaram. Miguel sentiu o calor se espalhar pelo braço onde o escudo estava preso.
A força do golpe o lançou de volta sobre um dos caminhos de pedra do Pátio. A pedra se rachou sob seus pés.
O orc continuou pressionando a clava contra o escudo. Miguel cerrou os dentes. Os dois permaneceram frente a frente, medindo forças. O orc inclinou a cabeça e falou com a mesma calma de antes:
— Eu falei… para correr.
Miguel não hesitou. Com um movimento rápido do escudo, desviou a enorme clava para o lado. Antes que o orc pudesse reagir, Miguel girou o corpo e desferiu um golpe preciso contra a coxa da criatura, uma das poucas partes sem proteção.
No instante em que a espada atingiu o gigante, a lâmina abriu um corte profundo em sua coxa. Não houve sangue. Uma luminosidade dourada permaneceu visível no interior do ferimento por alguns instantes antes de começar a desaparecer.
O orc recuou dois passos. Baixou o olhar para a própria coxa e levou a mão até o ferimento. Observou o corte em silêncio.
Um discreto sorriso surgiu em seu rosto. Logo depois, uma forte gargalhada ecoou pelo Pátio. Seus olhos voltaram a encontrar os de Miguel.
— Há muito tempo… Eu esperava por isso.
Alguns demônios conseguiram atravessar a chuva de flechas. Atrás da linha de escudos, os lanceiros avançaram, atacando sem parar. Algumas lanças perfuravam os invasores; outras erravam o alvo, permitindo que alguns deles rompessem a defesa. Os querubins da retaguarda desembainharam suas espadas e entraram no combate.
Um dos querubins tombou quando as garras de um demônio rasgaram seu peito. O sangue caiu sobre o mármore. Gabriel avançou, empurrou a criatura para longe e, com um único golpe, decepou a cabeça do demônio. Não houve sangue.
Próximo ao querubim caído, uma espada permanecia sobre o mármore. Gabriel se abaixou, apanhou-a com a mão livre e abriu as asas.
Iniciou um voo rápido pelo corredor. As duas espadas cruzavam o ar sem parar, abatendo demônios no chão, junto às paredes e até próximo ao teto.
Enquanto Gabriel abria caminho entre os invasores, Rafael virou a cabeça para acompanhar o que acontecia no Pátio.
Foi então que encontrou os dois querubins que transportavam as relíquias e armaduras. Logo atrás deles, vários demônios alados diminuíam rapidamente a distância.
Não conseguiriam escapar.
Rafael ergueu a voz.
— Gabriel… as armas!
Apontou para o céu acima do Pátio.
Gabriel interrompeu o ataque, bateu as asas e retornou para junto do irmão.
— Você vai ficar bem?
Rafael manteve o olhar sobre os demônios que avançavam.
— Eu seguro o corredor.
Gabriel levantou voo em direção a um dos grandes arcos do corredor. Alguns demônios alados tentaram interceptá-lo, mas foram abatidos por rápidos golpes das duas espadas que carregava. Sem reduzir a velocidade, atravessou a formação inimiga e seguiu em direção aos dois querubins que transportavam as armas e armaduras.
Rafael afastou-se da porta. Perdeu o equilíbrio por um momento, mas conseguiu firmar os pés no chão.
Os dois querubins que haviam tentado abrir os Aposentos de Deus ainda permaneciam próximos. Um deles voltou-se para Rafael.
— Meu Comandante, vamos ajudar.
Rafael olhou para a formação. Os demônios pressionavam cada vez mais os escudos.
— Não. Fiquem aí. Continuem tentando abrir a porta.
Os dois assentiram.
Rafael então se virou para um dos lanceiros que permaneciam na retaguarda.
— Me dê a lança.
O querubim entregou a arma. Rafael firmou a lança contra o chão e apoiou parte do peso do corpo nela. Depois, precisou virar novamente a cabeça para acompanhar Gabriel pelo Pátio.
Gabriel mudou bruscamente de direção, desviando dos demônios que tentavam interceptá-lo. Sem reduzir a velocidade, abateu outros pelo caminho. Não podia perder tempo.
Logo se aproximou dos demônios que perseguiam os dois querubins. Um dos demônios já estava prestes a alcançar um deles. Ele olhou para trás, e seus olhos revelaram o medo.
Gabriel chegou a tempo. Entre os arcanjos, era o mais rápido. Com um único golpe, decepou uma das asas do demônio. A criatura perdeu o controle do voo e, enquanto despencava, tentou agarrar a perna de outro demônio que voava logo abaixo. Os dois desapareceram juntos em direção ao solo.
Gabriel girou o corpo no ar e, aproveitando o próprio impulso, atravessou a barriga de outro demônio com a espada. A criatura perdeu o voo e também despencou.
Gabriel parou entre os demônios e os dois querubins. Voltou-se para aquele que carregava as relíquias e a armadura de Rafael.
— Vá. Leve tudo ao meu irmão.
O querubim bateu as asas e seguiu em direção ao corredor. Gabriel voltou o olhar para o outro querubim.
— Eu te protejo. Prepare minhas espadas.
O querubim retirou o pano dourado que envolvia as duas bainhas. Eram feitas de couro marrom e adornadas por detalhes dourados. Segurou a primeira bainha e puxou a espada. A lâmina dourada foi revelada. Em seguida, fez o mesmo com a segunda.
Gabriel partiu novamente para o ataque. Com um golpe rápido, abateu outro demônio. No mesmo movimento, lançou uma das espadas. A lâmina atravessou a cabeça de outro inimigo, que perdeu o voo e despencou.
Girou o corpo e arremessou a segunda espada contra outro demônio que se aproximava. A arma o atingiu em pleno voo e o lançou para trás.
Logo atrás de Gabriel, suas duas relíquias foram lançadas pelo querubim.
Gabriel estendeu os braços, e cada espada encontrou uma de suas mãos.
Sem perder tempo, disparou contra os demônios que perseguiam o querubim. As duas lâminas douradas cortavam o ar em perfeita sintonia enquanto Gabriel girava o corpo e atravessava a formação inimiga.
Alguns demônios perderam os braços. Outros tiveram as asas decepadas. Alguns foram partidos ao meio.
Nenhum deles sangrou. No interior dos cortes, apenas uma luminosidade dourada permaneceu visível por alguns instantes.
As duas espadas continuaram cortando o ar enquanto, por um breve instante, os corpos pareciam suspensos.
Então, um a um, começaram a despencar do céu.
Gabriel parou diante do querubim.
— Está bem?
O querubim assentiu com a cabeça.
Gabriel lhe entregou as duas relíquias. Sem perder tempo, começou a vestir sua armadura ainda suspenso no ar. Assim como a de Miguel, ela era predominantemente branca, com detalhes dourados. As ombreiras permaneciam completamente brancas. O querubim também lhe entregou as duas bainhas. Gabriel prendeu uma de cada lado da cintura. Em seguida, recebeu as relíquias de volta.
Seu olhar voltou para o corredor. Rafael permanecia apoiado sobre a lança, sustentando a defesa da entrada dos Aposentos de Deus. Gabriel mergulhou para voltar até o irmão.
Mas, antes que pudesse ganhar velocidade, sentiu um intenso calor sob o queixo e no pescoço.
Uma única gota de suor surgiu em sua têmpora.
Instintivamente, ergueu uma das espadas.
Um intenso clarão dourado explodiu à sua frente, enquanto pequenas brasas foram lançadas pelo ar. Algumas atingiram o rosto de Gabriel e deixaram pequenas marcas em sua armadura. Outras perderam o brilho e se apagaram ainda no ar.
Uma lâmina curva havia parado a poucos centímetros de seu pescoço.
Gabriel sentiu a espada aquecer em sua mão. Sem hesitar, ergueu a outra espada e golpeou a lâmina curva de baixo para cima.
Um novo clarão dourado iluminou o céu, espalhando brasas ao redor. Gabriel sentiu o calor percorrer também a outra espada. Logo depois, a temperatura começou a diminuir.
Sem perder tempo, Gabriel transformou a defesa em ataque. Girou o corpo, esticou completamente o braço e a espada cortou o ar, mas não encontrou seu alvo.
Só então Gabriel conseguiu ver quem o atacara.
À sua frente estava uma criatura humanoide com aproximadamente dois metros e meio de altura. Possuía pernas de águia, enquanto o tronco e os braços tinham aparência feminina. Um peitoral negro, atravessado por veios vermelhos, protegia apenas a parte superior do tórax, do pescoço até pouco abaixo dos seios, deixando o abdômen e a cintura expostos. Proteções do mesmo material cobriam seus antebraços.
Suas grandes asas negras tinham quase três metros de envergadura. Sua cabeça de dragão era negra, sem qualquer fio de cabelo, sustentada por um longo pescoço. Os olhos vermelhos permaneciam fixos em Gabriel.
Em suas mãos estava uma grande foice negra, também atravessada por veios vermelhos. Gabriel reconheceu a lâmina curva que, momentos antes, quase alcançara seu pescoço.
Ela passou a língua pelos lábios, e um sorriso surgiu em seu rosto.
— Hummm… O anjinho morde.