Um homem permanecia imóvel diante do parapeito da varanda de Seus aposentos.
Tinha pouco mais de dois metros de altura. Seus cabelos e Sua longa barba eram de um branco puro, destacando-se contra o mármore claro, de tom quase marfim, atravessado por finos veios dourados. Vestia uma túnica branca adornada por discretos detalhes dourados na gola e nas extremidades das mangas.
Uma de Suas mãos repousava sobre o parapeito. À primeira vista, Sua postura era inabalável; apenas o leve tremor em Seus dedos revelava Seu cansaço.
Seus olhos estavam voltados para um único ponto. Muito abaixo estava a Terra.
Era Deus.
Ele inspirou profundamente, ainda olhando para a humanidade.
— Vocês mataram Meu Filho…
Permaneceu ali por mais alguns instantes. Então voltou-Se, entrou em Seus aposentos e fechou a porta da varanda atrás de Si.
O ambiente era amplo e silencioso, construído no mesmo mármore que revestia a varanda. Um grande tapete ocupava o centro do quarto. De um lado, três cadeiras estavam posicionadas diante de uma ampla poltrona. Mais ao fundo, uma estante repleta de pergaminhos e livros dividia espaço com uma escrivaninha de madeira clara. Próxima à parede repousava uma grande cama de ferro dourado, coberta por lençóis brancos.
Deus atravessou o aposento em direção à grande porta dourada. Seus passos eram lentos, mas firmes.
Abriu uma das folhas e saiu para o corredor.
Ao Seu redor erguia-se o Templo do Céu, construído no mesmo mármore. Discretos detalhes de ouro acompanhavam partes dos grandes arcos e as regiões superiores das colunas, destacando-se sobre o tom quase marfim da construção. O andar térreo era cercado por paredes maciças, interrompidas apenas pelos grandes acessos que levavam ao Pátio. Acima delas, no primeiro andar, estendiam-se longos corredores abertos. Em vez de paredes laterais, sucessões de grandes arcos sustentados por colunas acompanhavam toda a sua extensão, abrindo-se de um lado para o Pátio e, do outro, para o exterior do Templo. Torres e galerias se elevavam acima da construção.
Ali, o Sol jamais nascia e a Lua nunca surgia no céu. Ainda assim, tudo permanecia iluminado por uma luz constante, sem fonte visível.
Não havia vento, frio ou calor, e nenhuma sombra era projetada.
No centro do Templo havia um vasto pátio. Caminhos de pedra serpenteavam entre árvores e flores cuidadosamente preservadas, formando um jardim que lembrava o próprio Éden.
Deus continuou avançando pelos corredores, em direção aos aposentos de quem carregava o título de Messias.
À Sua frente erguia-se uma imensa porta em formato de arco, alta o suficiente para alcançar o teto. Esculpida no mesmo mármore do Templo, exibia ao centro um grande sol dourado estilizado, cercado por delicados entalhes que percorriam suas duas folhas.
O silêncio permanecia absoluto.
Deus avançou até a porta. Não havia desespero em Seu rosto, nem sofrimento, apenas um sutil cansaço.
Ao alcançá-la, ergueu a mão. Antes de tocá-la, respirou mais uma vez e murmurou:
— …e muitos não compreenderam o Seu sacrifício.
As enormes portas se abriram, revelando um amplo aposento construído no mesmo mármore. Não havia janelas.
No centro do piso, um grande sol dourado estava incrustado na pedra. Sobre o centro do desenho repousava um berço de ferro dourado, cuidadosamente trabalhado.
Nele dormia quem carregava o título de Messias. Era uma bebê de aproximadamente dois meses, envolta em um tecido dourado. As bochechas rosadas, os cabelos negros e a expressão serena compunham o rosto adormecido da bebê. Alheia a tudo o que acontecia além daqueles aposentos, Ela dormia tranquilamente.
Deus aproximou-Se do berço e observou o rosto adormecido da Filha. Então sorriu. Não era o sorriso do Criador diante de Sua criação, mas o sorriso de um Pai diante da Filha. Com a ponta dos dedos, afastou uma mecha de cabelo que repousava sobre a testa da bebê. Antes que pudesse acariciar Seu rosto, o Messias abriu os olhos.
Por um instante, os dois apenas se olharam. Um pequeno sorriso surgiu no rosto da bebê, e Seus pequenos dedos se fecharam em torno de um dos dedos de Deus.
Deus fechou os olhos por um momento. Depois, com extremo cuidado, tomou a Filha nos braços e A trouxe para junto do peito. Permaneceu em silêncio, admirando-A.
— Agora será diferente…
— Seu irmão foi até eles como homem… Desta vez… Você irá como Deus para eles.
Deus deu alguns passos pelos aposentos, embalando o Messias nos braços, sem pressa, como se desejasse prolongar aquele momento ao lado da Filha. Pouco depois, a bebê voltou a adormecer.
O Pai aproximou-Se do berço e A acomodou sobre o tecido dourado. Depositou um beijo em Sua testa e passou a mão por Seus cabelos negros.
— Descanse, Minha Filha.
Afastou-Se do berço e voltou em direção à porta. Antes de sair, lançou um último olhar para a Filha.
As enormes portas começaram a se fechar. Seus olhos permaneceram voltados para o Messias até que as duas folhas de mármore se encontraram e o silêncio voltou a dominar o ambiente.
Do lado de fora, Deus apoiou uma das mãos sobre a porta, fechou os olhos e inspirou profundamente. Depois voltou a caminhar.
Deu o primeiro passo. Depois o segundo. No terceiro, Suas pernas falharam. Antes que caísse, apoiou um dos joelhos sobre o mármore e levou uma das mãos ao chão para sustentar Seu peso.
Sua respiração tornou-se pesada. Não de dor, mas de profundo esgotamento.
Não muito distante dali, três arcanjos percorriam silenciosamente os corredores do Templo do Céu durante a troca da guarda.
À frente caminhava Miguel. Com pouco mais de um metro e oitenta, tinha o corpo mais robusto dos três, ombros largos e postura impecável. Trazia longos cabelos loiros que repousavam sobre os ombros. Seus olhos azuis permaneciam atentos a cada detalhe do corredor.
Vestia uma túnica branca adornada por discretos detalhes dourados nas mangas e na barra. Uma faixa dourada envolvia sua cintura, amarrada lateralmente.
À cintura carregava uma espada embainhada. A bainha era de couro marrom, adornada por detalhes dourados. A empunhadura, envolta em couro trançado, terminava em um pomo dourado e era protegida por uma guarda branca.
Alguns passos atrás vinham Gabriel e Rafael, ambos vestidos com túnicas idênticas à de Miguel.
Gabriel, com cerca de um metro e setenta e cinco, era o mais baixo dos irmãos, de corpo atlético e proporções mais leves. Seus cabelos castanho-claros caíam em algumas franjas sobre a testa. Tinha a pele parda e os olhos verdes.
Rafael, com pouco mais de um metro e noventa, era o mais alto dos três. Sua silhueta era mais alongada e esguia, embora ainda bem definida. Tinha a pele clara, cabelos negros, curtos e penteados para trás, deixando apenas uma discreta franja sobre a testa, e olhos castanho-escuros.
Foi Miguel quem percebeu primeiro. Seus olhos encontraram Deus ajoelhado sobre o mármore e, sem hesitar, disparou em Sua direção. Suas asas permaneceram recolhidas junto às costas para não atrapalharem sua corrida.
— Meu Senhor!
Ajoelhou-se imediatamente ao Seu lado e passou um dos braços por Suas costas, ajudando-O a recuperar o equilíbrio.
— Meu Senhor… o Senhor está bem?
Deus ergueu lentamente o rosto. Mesmo respirando com dificuldade, respondeu com um leve sorriso.
— Sim… Estou.
Sem desviar os olhos de Deus, Miguel elevou a voz.
— Gabriel! Rafael!
Gabriel foi o primeiro a reagir e abriu imediatamente as asas. Com um forte impulso, levantou voo e cruzou o corredor entre os grandes arcos em poucos instantes.
Rafael também acelerou o passo. Seus olhos permaneciam atentos a tudo ao redor.
Em poucos segundos, Gabriel pousou ao lado de Deus.
— Pai!
Sem esperar qualquer resposta, passou o braço ao redor Dele, ajudando Miguel a sustentá-Lo.
— Estou bem… Meu filho — disse Deus, antes que Gabriel pudesse perguntar.
Rafael finalmente alcançou os três. Ao contrário dos irmãos, não se aproximou imediatamente. Primeiro percorreu o corredor com os olhos: nenhum sinal de invasão, nenhuma porta violada, nenhuma movimentação incomum. Seu olhar então parou sobre os Aposentos do Messias. Somente depois voltou-se para Deus.
— Meu Criador… A criação do Messias consumiu muito de Sua força. O Senhor deveria estar descansando.
Miguel lançou um rápido olhar para Rafael.
— Rafael. Agora não.
Ao perceber que Gabriel já sustentava Deus com firmeza, Miguel voltou sua atenção para os irmãos.
— Gabriel, ajude o nosso Senhor a voltar aos Seus aposentos. Depois, venha ao meu encontro no Pátio.
Miguel voltou-se para Rafael.
— Rafael, fique de guarda diante dos Aposentos de Deus. Se o nosso Senhor precisar de algo, ajude-O.
Os dois assentiram. Miguel voltou a olhar para Deus.
Deus respondeu com um discreto aceno. Miguel deu meia-volta e retomou seu caminho pelos corredores.
Gabriel conduziu o Pai em direção aos Seus aposentos, sustentando-O pela cintura enquanto um dos braços de Deus repousava sobre seus ombros.
Rafael os acompanhava alguns passos atrás, atento ao corredor.
Pouco depois, chegaram à entrada dos Aposentos de Deus, marcada por uma grande porta dourada em formato de arco, ornamentada por delicados relevos.
Rafael abriu uma das folhas, e Gabriel conduziu o Pai para o interior do quarto.
Rafael permaneceu alguns passos atrás, atento ao corredor.
Antes de seguir, Deus parou e voltou-Se para Rafael. Sem dizer uma palavra, colocou a mão sobre o ombro do arcanjo. Rafael abaixou discretamente a cabeça. Então Deus seguiu com Gabriel.
Gabriel O conduziu até a cama e ajudou o Pai a deitar-Se. Permaneceu ao Seu lado, ainda preocupado.
— Pai… realmente o Senhor está bem?
Deus sorriu.
— Vá.
Gabriel segurou a mão do Pai por um instante e depois a soltou.
— Sim, Pai.
Afastou-se da cama e voltou em direção à porta.
Rafael permanecia do lado de fora, mantendo uma das folhas aberta.
Quando Gabriel atravessou a porta, os dois trocaram um olhar e inclinaram discretamente a cabeça. Gabriel abriu as asas e, com um único impulso, levantou voo pelo corredor. Ao alcançar um dos grandes arcos que se abriam para o Pátio do Templo, atravessou-o. Rafael voltou os olhos para o interior dos aposentos.
— Com licença, Meu Criador.
Fechou a grande porta dourada e permaneceu diante dela.
Enquanto isso, no Pátio do Templo, Miguel organizava a troca da guarda entre os querubins. Bem menores que os arcanjos, tinham cerca de um metro e vinte de altura e vestiam armaduras leves inteiramente douradas, que protegiam apenas o tórax, deixando braços e pernas livres. De suas costas nasciam duas asas brancas, proporcionalmente grandes para seus pequenos corpos.
Dividiam-se conforme suas funções: alguns carregavam escudos e espadas, outros longas lanças, enquanto os arqueiros mantinham seus arcos junto ao corpo.
Gabriel desceu em voo baixo e pousou próximo ao irmão. Miguel voltou o olhar para ele.
— Nosso Senhor?
— Está descansando — respondeu Gabriel.
Gabriel percebeu que Miguel continuava atento à movimentação da guarda.
— Ainda está preocupado com o estado do nosso Senhor?
— Estou.
Miguel observou o Pátio.
— Nosso Senhor nos avisou que, depois da criação do Messias, a proteção que envolve o Céu ficaria enfraquecida.
Gabriel acompanhou seu olhar.
Miguel então apontou para dois querubins.
— Vocês dois.
Os dois querubins se colocaram em posição.
— Vão até os Aposentos de Deus e vejam se Rafael precisa de ajuda.
— Sim, Meu Comandante!
Os dois abriram as asas e partiram.
Miguel voltou sua atenção para a guarda.
Diante dos Aposentos de Deus, Rafael permanecia atento. Seus olhos percorriam cada coluna, cada arco e cada detalhe do corredor.
Algo escuro cruzou o canto de sua visão.
Rápido demais para ser identificado. Não era uma sombra projetada no mármore; era um vulto.
Rafael parou. Seu corpo inteiro entrou em alerta. Virou o rosto, tentando acompanhá-lo.
Nada.
Nenhum som, nenhuma presença, nenhuma movimentação. O silêncio permanecia absoluto.
Rafael deu mais um passo. Então sentiu algo úmido escorrer pela têmpora esquerda. Instintivamente, levou a mão ao rosto. Quando olhou para os dedos, seu semblante mudou.
— Suor…?
Sua voz quase não saiu. No Céu, aquilo não existia.
O vulto surgiu outra vez, agora mais próximo.
Antes que Rafael pudesse reagir, algo cortou o ar. Num único instante, rasgou o lado esquerdo de seu rosto. O corte atravessou a bochecha, subiu até a testa e destruiu completamente seu olho esquerdo.
Rafael caiu de joelhos. Levou a mão ao lado ferido do rosto e sentiu a pele arder sob um calor intenso. O sangue escorria entre seus dedos, enquanto pequenos fios de fumaça subiam do ferimento.
Seu único olho ainda aberto percorreu desesperadamente o corredor em busca do inimigo.
Mas não havia ninguém.
Uma gota de sangue caiu sobre o mármore.
Depois outra.
E mais outra.
Uma pequena poça começou a se formar diante de seus joelhos.
Sua respiração tornou-se pesada.
Seu corpo perdeu as forças e tombou para a frente.
Pela primeira vez na história do Céu…
O mármore do Templo era manchado por sangue.
Pouco depois, os dois querubins enviados por Miguel chegaram ao corredor e pararam ao encontrar Rafael caído diante dos Aposentos de Deus.
Nenhum deles reagiu de imediato.
Então correram até o arcanjo. Um deles se ajoelhou ao lado de Rafael e confirmou que ainda respirava. O outro permaneceu de pé e olhou para o companheiro.
— Fique com ele.
Abriu as asas e partiu em direção ao Pátio do Templo. Ao encontrar Miguel, mergulhou diante dele e parou no ar à altura de seu rosto, respirando com dificuldade.
— Meu Comandante!
Miguel voltou-se para ele.
— Fale.
O querubim tentou responder, ainda ofegante.
— Rafael… Rafael foi atacado!
A expressão de Miguel endureceu.
— Como disse?
— Rafael foi atacado. Está caído diante dos Aposentos do nosso Senhor.
Gabriel arregalou os olhos. Miguel voltou o rosto para o irmão. Os dois se encararam, e Miguel fez um discreto gesto com a cabeça.
Gabriel abriu as asas e desapareceu entre os grandes arcos, voando em direção aos Aposentos de Deus.
Miguel fechou a mão sobre o cabo da espada e voltou os olhos para os querubins espalhados pelo Pátio. Sua voz ecoou firme:
— Nível máximo de alerta!
A movimentação no Pátio cessou. Miguel caminhou entre os destacamentos enquanto distribuía as ordens.
— Reforcem a vigilância nos corredores! Enviem soldados aos Aposentos do nosso Senhor e aos do Messias!
— Nenhum ser entra ou sai do Templo sem a minha autorização! Aguardem novas ordens!
Enquanto Gabriel cruzava os arcos em direção aos Aposentos de Deus, Miguel mobilizava toda a guarda no Pátio.
Gabriel chegou primeiro. Ao entrar no corredor, encontrou apenas um querubim ajoelhado ao lado de Rafael. Recolheu as asas, tocou o mármore com os pés e deslizou alguns metros. Antes mesmo de parar completamente, já estava de joelhos ao lado do irmão.
— Rafael!
Com cuidado, apoiou uma das mãos sob os ombros de Rafael e virou seu corpo.
Gabriel congelou.
O corte atravessava todo o lado esquerdo do rosto do irmão, da testa à bochecha. Ao redor, a carne estava queimada, e as bordas da ferida haviam sido cauterizadas pelo calor intenso. Pequenos fios de fumaça ainda escapavam do ferimento.
Seu olho esquerdo… Já não existia mais.
Gabriel sequer conseguiu respirar.
Os primeiros querubins começaram a chegar. Enquanto alguns formavam uma linha defensiva diante dos Aposentos de Deus, outros ocupavam os acessos do corredor. Arqueiros abriram as asas e permaneceram suspensos no alto, com os arcos preparados.
Gabriel olhou novamente para o ferimento de Rafael. Então seus olhos desceram para o mármore.
Uma pequena poça de sangue havia se formado sob o lado esquerdo do rosto do irmão.
Mas havia outras marcas.
Algumas gotas estavam separadas da poça. Mais adiante, pequenos respingos de sangue se espalhavam de maneira irregular pelo mármore.
Gabriel franziu a testa.
Então ergueu os olhos para a grande porta dourada dos Aposentos de Deus.
Sua voz saiu quase como um sussurro.
— Quem… seria capaz de fazer isso… dentro do Céu?
No Pátio, Miguel levou a mão à espada e a sacou. A lâmina inteiramente dourada deixou a bainha. Com a ponta da espada, indicou um destacamento de arqueiros.
— Vocês três.
Os três se colocaram em posição.
— Sim, Meu Comandante!
— Tragam nossas armaduras. Tragam também meu escudo e as relíquias de Gabriel e Rafael.
— Depressa.
— Sim, Meu Comandante!
Os três abriram as asas e levantaram voo.
Miguel voltou-se para os demais arqueiros.
— O restante de vocês, aos Aposentos do Messias.
— Formem uma linha defensiva. Protejam-Na com suas vidas.
— Sim, Meu Comandante!
Os querubins abriram as asas e partiram.
Miguel voltou-se para outro destacamento de querubins armados com espadas, escudos e lanças.
— Vocês também. Reforcem a defesa dos Aposentos do Messias. Nenhum invasor deve chegar até Ela. Avancem!
— Sim, Meu Comandante!
O destacamento partiu imediatamente, enquanto Miguel acompanhava toda a movimentação do Pátio.
Pouco depois, Miguel avistou os três querubins retornando.
Cada um trazia uma armadura. Um deles carregava também o grande escudo de Miguel. Os outros dois transportavam cuidadosamente as relíquias de Gabriel e Rafael, parcialmente envoltas em panos dourados.
Um carregava uma longa lança, cuja ponta dourada permanecia descoberta. O outro trazia duas espadas curtas, presas lado a lado, com apenas suas empunhaduras visíveis.
O querubim que transportava a armadura e o escudo de Miguel pousou diante dele.
— Meu Comandante… sua armadura e seu escudo.
Miguel assentiu e voltou o olhar para os outros dois.
— Vão. Levem as armaduras e as relíquias aos meus irmãos. Façam com que cheguem às mãos deles.
— Sim, Meu Comandante!
Os dois partiram imediatamente.
Miguel guardou a espada na bainha e começou a vestir sua armadura.
A armadura era branca, ornamentada por discretos detalhes dourados. Quando terminou, apenas sua cabeça e suas asas permaneciam descobertas.
Prendeu o escudo ao braço esquerdo. O grande escudo era branco, com um sol dourado ocupando o centro e uma faixa da mesma cor acompanhando a borda.
Então levou a mão à espada e voltou a desembainhá-la.
Miguel firmou a espada na mão direita e a ergueu. Seu olhar percorreu os querubins reunidos no Pátio.
— Avancem! Protejam o nosso Senhor!
Miguel correu à frente, seguindo pelo caminho de pedras que levava aos Aposentos de Deus. Os soldados avançaram logo atrás, enquanto os arqueiros acompanhavam o destacamento pelo alto.
Miguel diminuiu o passo e ergueu o olhar. Muito acima do Templo, uma pequena mancha escura rompia o azul perfeito do Céu. Não compreendeu de imediato o que via.
No Céu, jamais existiram nuvens.
Os querubins também pararam. O silêncio tomou conta do Pátio. Miguel respirou fundo e ergueu a espada.
— Não tenham medo!
Olhou para os querubins.
— Nosso Senhor está conosco!
Fez um breve gesto à frente.
— Avancem!
Os querubins voltaram a correr. Foi nesse instante que a mancha escura pareceu se abrir. Algo surgiu de seu interior e despencou do céu.
O impacto fez o chão estremecer. Pedras foram lançadas para todos os lados, a terra abriu-se e a grama foi arrancada pela onda de choque. Miguel ergueu o escudo diante do corpo, e os querubins fizeram o mesmo. Uma espessa nuvem de poeira tomou conta do caminho.
Miguel manteve a espada firme diante do corpo. Então sentiu algo escorrer por sua têmpora esquerda.
Uma gota de suor.
Seu semblante mudou. Aquilo não deveria ser possível.
Uma intensa onda de calor veio da poeira. O ar começou a tremular. Aos poucos, a poeira começou a baixar.
Primeiro surgiu um longo cabo negro.
Depois, uma enorme esfera coberta por espinhos: uma clava gigantesca, quase do tamanho do próprio Miguel.
Veios vermelhos percorriam toda a arma, como brasas vivas sob o metal escurecido, e o calor que emanava dela distorcia o ar ao redor. No ponto onde havia caído, o caminho de pedras estava completamente rachado. A terra havia se tornado negra, e a vegetação ao redor fora reduzida a cinzas.
Atrás da clava, a poeira ainda permanecia densa. Então uma mão gigantesca surgiu em meio a ela. A pele era verde-escura, marcada por manchas verde-musgo. Os enormes dedos envolveram o cabo da clava e, num movimento violento, arrancaram a arma do chão.
Sem interromper o movimento, a clava subiu em direção a Miguel. Ele saltou para trás no último instante, escapando do golpe. A enorme esfera passou diante dele e sumiu de sua visão em meio à poeira.
Quando a poeira finalmente se dissipou, diante de Miguel erguia-se um orc, com a enorme clava apoiada sobre o ombro direito.
Miguel percorreu rapidamente a criatura com os olhos e percebeu que ela não possuía asas. Ainda assim, estava ali.
Com mais de três metros de altura, o orc possuía um corpo extremamente musculoso. Sua pele verde-escura era marcada por manchas verde-musgo. Vestia uma armadura negra percorrida por veios vermelhos semelhantes aos de sua clava. Ombreiras protegiam seus ombros, braçadeiras cobriam os antebraços e grevas negras envolviam suas pernas dos joelhos até os pés.
Miguel firmou a espada.
— Saia do meu caminho.
Deu um passo à frente.
— O meu Senhor precisa de mim.
Um lento sorriso surgiu no rosto do orc. Ele retirou a clava do ombro, apoiou a grande esfera no chão e descansou as duas mãos sobre o cabo.
— Corra…
Fez uma breve pausa.
— Ainda dá tempo.
Miguel franziu a testa. A mancha escura voltou a chamar sua atenção. Ergueu os olhos.
Aquilo…
Era um exército.
Milhares de demônios ocupavam o céu e o solo ao redor do Templo. Alguns empunhavam espadas, outros machados ou lanças. Os que possuíam asas cobriam o céu, enquanto os demais avançavam pelo solo. Miguel observou aqueles que caminhavam.
O orc não era o único.
Os querubins permaneceram imóveis. O medo era visível em seus rostos.
Miguel, porém…
Não recuou um único passo.